Há algum tempo estou lendo um
livro do Dostoievski, Os Demônios.
Digo algum tempo remetendo um longo período, coisa que não é da minha
preferência. Gosto de começar e terminar rapidamente as minhas leituras.
Contudo, com tantas coisas e “prioridades” o livro não ficou nem em segundo,
mas em décimo plano.
Como
algumas pessoas que me cercam já sabem, estou paradinha – literalmente parada –
por conta de uma cirurgia. Aí que a leitura volta a ter um destaque.
Enfim,
pela manhã, lendo, encontrei uma passagem muito sugestiva para os nossos dias,
que demonstra toda a atualidade e genialidade profética de Dostoievski (um dos maiores romancistas da literatura
russa e um dos mais inovadores artistas de todos os tempos). A passagem é a
seguinte:
“Toda a dúvida está
apenas em saber: o que é mais belo, Shakespeare ou um par de botas, Rafael ou o
petróleo?”
A
frase me deixou, literalmente, de orelha em pé.
A
título de esclarecimento, o livro Os
demônios foi escrito através da motivação de um episódio verídico: o
assassinato do estudante russo I. I. Ivanov pelo grupo niilista (em linhas
gerais é a desvalorização e a morte
do sentido, a ausência de finalidade e de resposta ao “porquê”) liderado
por S. G. Nietcháiev em 1869. Um ano depois o livro foi concebido, com fins
assumidamente panfletários.
O autor analisando
o crime cometido pelo grupo niilista profetiza o que acontecerá posteriormente
no século 20. Ele consegue vislumbrar os cruéis fanatismos de Hitler e Stálin.
Desta forma, os demônios do título do livro são traduzidos como a violência, a
ignorância, o terrorismo e a impostura ideológica. Estes demônios alegóricos
mesmo no nosso século, o 21, continuam vivos sob novos disfarces.
Mas
e a frase que eu escolhi? Por que me deixou de orelha em pé?
Em
minha opinião ela retrata não só o que se passava nas pessoas, ditas práticas,
do final do século 19. Mas ainda em nosso tempo muitos pensam: o que é mais
importante, uma obra de arte ou um barril de petróleo?
O
belo, o moralmente belo, está há muito tempo em decadência. Muitos
– e muitos que eu digo podem se dizer muitos povos – se importam muito mais com
as cifras e o poder do capital, do que com a beleza.
Shakespeare
não tem a mesma utilidade – e ser útil é muito importante – de um par de botas.
O importante é o valor de uso, de uso literal. Assim muitos podem achar mais
importante um par de botas do que ler e entender, efetivamente, Shakespeare.
Mas
por qual motivo deixamos de acreditar no abstrato em nome do útil?
Passamos
a dar mais valor àquilo que é útil, na medida em que o capital se tornou
essencial. Quando passamos a nos sentir bem consumindo um produto concreto. Ou
seja, um produto que podemos mostrar às outras pessoas. A sociedade capitalista
tornou-se exibicionista e arrogante.
Seguindo
essa linha, não podemos mostrar, de fato, o livro de Shakespeare que acabamos
de ler. Mas podemos mostrar o carro zero km., financiado em várias parcelas. É
isso o que realmente importa, infelizmente, em nossa sociedade. Mesmo se você
não tenha dinheiro para pagar todas as parcelas do financiamento, quem se
importa? Mas você está figurando pelas ruas com o seu carro zero.
Na
sociedade contemporânea capitalista é assim. Já afirmava Guy Debord no seu
livro A sociedade do espetáculo
(1967), a mercadoria virou espetáculo. A arte e a beleza não cumprem mais o seu
papel conciliador na sociedade.
Debord
explica que o espetáculo é uma forma
de sociedade em que a vida real é pobre e fragmentária,
e os indivíduos são obrigados a contemplar e a consumir passivamente as imagens
e as mercadorias de tudo o que lhes falta
em sua existência real. Fica a reflexão: Como mudar algo já estabelecido e
consentido por todos?
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