domingo, 13 de novembro de 2011

Lixo: para onde vamos mandá-lo?

Você já parou para pensar para aonde vai todo o lixo que produzimos? Se fossemos ingleses seria fácil esta questão. Era só mandar tudo num container para algum país da América do Sul, mais especificamente, o Brasil. Na verdade não foi apenas um container, mas sim 56! Ou melhor, 900 toneladas de lixo comum. Leia-se camisinhas e fraldas usadas, seringas, restos de comida... Dizem que havia até brinquedos com recados para fossem dados às crianças brasileiras. Simplesmente um absurdo, que só poderia partir de uma monarquia decadente. Vale lembrar que isso parece ser uma prática comum dos países da Europa, que mandam seu lixo para a África e Ásia. E não é só lixo, propriamente dito, que eles andam mandando pra outros países… tem o “lixo” de gente também.
O mundo está inflado, super populoso e, ainda por cima, sem consciência ecológica.
Mas a culpa é de quem?
A culpa é do sistema capitalista de produção, que só sabe incentivar o consumo e a produção desenfreada.
O problema todo teve início quando a burguesia comprou a sua liberdade e saiu por ai desbravando mares, conquistando territórios e ampliando mercados. Com o aumento da produção surgem as fábricas, com as fábricas surgem o proletariado. E toda uma lógica de consumo.
Taylor em seu livro, Princípio de administração científica, propõe a racionalização da produção, com a finalidade da produção em massa. Já Henry Ford introduz a linha de montagem na produção automobilística, que século XX se expande, a partir dos EUA, para todos os ambientes, visando mais eficiência.
O mundo só pensava em produzir para o consumo desenfreado. Sem consciência das agressões ambientais.
Ainda hoje, no século XXI, temos a ilusão de uma consciência ambiental. Separar o lixo ainda é uma luta, as pessoas têm preguiça. Ao invés de consertar um aparelho quebrado preferimos jogar fora (mas aonde é o fora?) e comprar um novo, porque a lógica capitalista afirma que é mais barato comprar um aparelho tecnológico novo, do que consertar. Realmente, arrumar fica caro, é mais vantajoso ter um aparelho novo com nova tecnologia, mas é vantajoso para quem? Aposto que para o nosso planeta e para os técnicos em conserto não.
Há duas semanas uma equipe de cientistas e ambientalistas partiu de São Francisco, nos EUA, em busca do que alguns chamam de "A Ilha do Lixo" – um redemoinho de lixo no Oceano Pacífico formado por mais de seis milhões de toneladas de plástico. O amontoado de lixo flutua à deriva entre a Califórnia e o Japão.
A que ponto chegamos? É como arrastar para debaixo do tapete a sujeira. Não temos aonde por em terra, joga-se no mar.
Segundo o site portaldomeioambiente.org.br, “o redemoinho foi descoberto em 1997 pelo oceanógrafo Charles Moore. Ele ignorou os alertas de não passar pela região, onde faltam ventos e correntes, e acabou descobrindo o acumulado de lixo. Durante a viagem, o oceanógrafo encontrou pedaços de garrafas, sacos plásticos, seringas e uma variedade enorme de outros objetos de plástico em vários estados de conservação, já que, devido à ação do sol e dos ventos, o material se desintegra em fragmentos pequenos que flutuam durante anos, obedecendo às correntes marítimas”.
Só para termos dimensão do lixo que está lá. Ele é duas vezes maior do que a superfície do estado norte-americano do Texas. É muito lixo!
Mais de uma década descoberto e ninguém fez nada para resolver o gigantesco problema. Porque o lixo está em águas internacionais, ou seja, não é do governo de nenhum país. Mas isso não significa que não influencie todos os países do mundo. Peixes estão morrendo, águas são poluídas, e o problema é de quem? Vamos olhar com mais carinho e consciência para o nosso lar, o nosso planeta!


Escrito em 30/08/2009.

Um quilo de sal

Por que muitas vezes nos sujeitamos às situações que nos causam desconforto? Será falta de personalidade em dizer não a tais situações?
Ela, por muito tempo, não sabia como agir... Segurava o desconforto. Angustiada, tentava não estourar. Mas sempre estourava, porque aquilo não fazia parte do seu universo. Ela não suportava mais o desgaste que ele provocava em sua vida. Não queria assumir que o melhor a fazer era jogar tudo para o alto e o mandar para “o raio que o parta”! Tomar uma atitude sempre é difícil, doloroso. Doloroso para quem toma a atitude, doloroso para quem toma o pé na bunda.
Mas quando a situação é insustentável não se tem muita escolha. Mudar é impossível. O mundo se tornou muito individualista, ninguém quer ceder, ninguém quer perder. Nesse grande jogo as regras não são claras, e o coração sempre sai ferido.
O que mais impressiona os sentimentos dela é a falta de sentimentos dele. Ele não tem caráter, não sabe que mentir compulsivamente é uma patologia.
Ela, as vezes estando com ele é triste (mesmo ele afirmando que nunca faz por mal). Está cansada de ouvir que ele é imaturo, parece que todos tentam encobrir o desvio de caráter dele. Ela tenta enxergar coisas boas. Mas as ruins acabam se sobressaindo em alguns momentos.
O que ela pode fazer? Qual atitude tomar em relação a ele?
Seria melhor dar um fim em tudo, seria o mais ajustado, o mais racional. Mas ela sofre, com as coisas do coração não há razão, não “rola” teorizar muito. É paixão, sentimento instintivo, bem-querer. O racional não se aplica ao amor.
A felicidade existe entre eles, apesar de não ser constante, mas o que é constante? O que é certo ou errado? Quem é dono da verdade absoluta para afirmar ou negar com certeza plena? Eles deveriam ser mais unidos em meio a esse mundo de desunião. Eles são jovens – e alguns podem até dizer – que são inexperientes. Mas eles têm esperança em um dia morarem juntos. Acreditam profundamente que a culpa da desunião é a diferença geográfica.
* * *
(Só mais uma taça de vinho, já estou terminando essa história, que pode ser minha como pode ser sua).
* * *
Ela é astuta, ele é de touro. Ele não tem regras, ela é metódica. Ambos são geniosos. E nenhum gosta de café. Mas acreditam que combinam na diferença. O relacionamento é como uma relógio analógico, você tem que conseguir acertar os ponteiros, apesar deles não serem iguais, eles tem que caminhar juntos (tanto os ponteiros como o relacionamento). Ou como um amigo cearense me disse uma vez: “manter um relacionamento é comer um quilo de sal junto!”.
O ser humano é um ser social, por natureza vive em comunidades se relacionando, sempre. Aí notamos como é antinatural o homem querer se individualizar cada vez mais, se isolar, e ficar sem uma parceira, ou parceiro. O caminho é o da compreensão, da tolerância, da partilha, da amizade sincera. Sim, amizade! Porque não existe um relacionamento amoroso sem você ser amiga (o) do seu amado (a). Enfim, companheirismo no sentido pleno da palavra.
Mais uma coisa eu soube por ai, resumindo toda esta história... Ela o ama, e ele a ama também. Morrem de saudades e de ciúmes. Outro dia me falaram que eles planejam se ver, sempre que possível, e continuar juntos.
P.S. 1: Esta é uma história fictícia. Qualquer semelhança é mero acaso.
P.S. 2: Houve um erro de digitação no texto da semana passada, é Aldous e não Adous, “comi” o “l”.

Escrito em 25/08/2009.

Os admiráveis reality shows

Na reta final, o reality show da Rede Record, A Fazenda, prova que a fórmula de agrupar pessoas reais e não personagens de um enredo ficcional dá certo.
Mas será que o enredo é realmente ficcional? Os cortes e as edições não privilegiam alguns? Há quem diga que o ator, ex-global, cantor (?), Dado Dolabella é o favorito ao prêmio de um milhão de reais. Segundo o jornal Extra On Line, “a família do ator decidiu pagar para pessoas votarem pela permanência dele no programa numa lan house do Rio. Os votos pela web tem o mesmo peso dos feitos por SMS e pelo telefone.” Quando da disputa de Dado com Pedro Leonardo e Danni Carlos.
O engraçado é quando termina o programa ou se é eliminado, o discurso é sempre o mesmo, para todos o importante é participar. Ter uma experiência de vida única num programa televisivo! Mas o que vemos é o interesse pelo dinheiro, e pela fama (que também pode trazer dinheiro).
Mas se você pensa que isso é coisa de 10 anos para cá, está enganado.
O fenômeno dos reality surge a partir dos anos 1970, nos Estados Unidos, quando uma série – An American Family – retrata o divórcio, e a declaração de homossexualismo por parte de um dos filhos. (Já podemos notar como o efeito surpresa, ou melhor, revelação dá o toque especial deste formato). Nos anos 1980 outros programas surgem, como COPS e The Real World (Na real, MTV). Em 1999 John de Mol patenteia o formato Big Brother. E aí a história nós conhecemos... Survivor ou No Limite, é só adaptar para o país e seguir a mesma fórmula! A TV brasileira importou vários reality: Aprendiz, Supernanny, Esquadrão da Moda, Troca de Família, Astros, Ídolos, 10 anos mais jovem... Tem para todos!
E qual é o motivo de tanto sucesso? Faço o mesmo questionamento em relação ao Orkut. Analisado chega-se a conclusão de que o Orkut é um reality com proporções menores, mas o mecanismo de superexposição é o mesmo. Parece-me que as pessoas sentem necessidade, ou até mesmo, carência em suas relações humanas reais. Desta forma projetam-se em um avatar ou em um profile, para suprir necessidades. Com os programas em formato reality é a mesma coisa, há essa projeção, porque os participantes são pessoas reais, que mostram a sua realidade. Fica mais fácil, a partir desta ideologia, prender a atenção do telespectador.
O livro do escritor, hoje considerado cult, Adous Huxley, O Admirável Mundo Novo (1931), retrata através de uma “fábula” futurista uma sociedade completamente organizada, sob um sistema científico de castas. Não há vontade livre, abolida pelo condicionamento; a servidão seria aceitável devido a doses regulares de felicidade química e ortodoxias, e as ideologias seriam ministradas em cursos durante o sono. Olhando o presente, podemos imaginar um futuro semelhante em termos de avanços tecnológicos. Hoje a sociedade está organizada e fundamentada em torno dos aparatos tecnológicos, temos câmeras públicas em ruas, estradas, escolas, elevadores. E isso é demonstrado no livro. Então não é de se espantar que achemos normal um bando de gente confinada. Como gado mesmo! Sendo filmada... Porque em nosso dia a dia já estamos sendo monitorados, e dê certa forma, também estamos confinados. A diferença está apenas na dimensão do espaço de confinamento.
Em um mundo no qual as pessoas se preocupam com assuntos alienantes e de pouco conteúdo emancipatório, não é de se assustar que no Top 10 da Internet quem está no topo das buscas é a Mulher Samambaia, seguido do resumo das novelas. Do quase reality Edir Macedo e Campeonato Brasileiro. Do sonho: resultado da Mega Sena. Do fetiche: Juliana Paes. Das buscas funcionais como, futebol ao vivo e Climatempo.com.br. E as lanterninhas do Top 10, Ashley Tisdale (nunca tinha ouvido falar, dizem que é cantora) e Madonna (que nas últimas de net está se agarrando ao seu Jesus). Mais uma vez me pergunto e jogo para vocês se questionarem: Qual será o futuro desta sociedade?


Escrito em 18/08/2009.

Agir intencionalmente bem

Gripe suína, dias dos pais, indulto, volta às aulas, Sarney... O que fazer? Sobre o que falar? O que realmente nos importa? Esta semana assisti em duas emissoras diferentes uma coisa que me chocou – deve ser porque eu tenho muito nojo ou porque é nojento mesmo –, africanos comem ratos, inteiros, tipo espetinho de rato! Por isso repito: o que nos importa?
O sistema econômico mundial não funciona. Muitos têm uma vida digna, milhares não sabem o que é dignidade. O ser humano está se esquecendo da própria humanidade. Não nos importa mais quem é o outro, ou qual é a necessidade do outro.
O filósofo alemão Immanuel Kant no livro Fundamentação da Metafísica dos Costumes fala da moral, do agir moral, do que é eticamente correto (é claro que não é um livro tipo manual, como agir moralmente bem em cinco minutos). Grosso modo o livro trata destas questões.
Kant acredita que ter boa vontade é a condição de toda a moralidade. Não importa se você saciou a fome de dez pessoas ou de uma, o que importa é a boa intenção. A vontade é boa quando agimos por dever, e não conforme o dever (que pode não ser moralmente boa). Quando uma pessoa age conforme o dever, ela pode estar movida por interesses egoístas. É o caso do vendedor que é honesto com os clientes visando apenas o lucro. Ele não engana, não rouba, não viola as leis. Exteriormente e legalmente a sua ação está dentro daquilo que deve ser feito. Mas o que está por detrás deste ato é promover o seu próprio negócio. Segundo Kant ele não agiu moralmente bem, porque, a sua ação foi apenas um meio para atingir um fim pessoal.
O valor moral de uma ação está sempre na intenção, logo, moralidade e legalidade – para Kant – não são sinônimos. Explicando: se a moralidade são as ações realizadas por dever, a legalidade engloba as ações que estão em conformidade com o dever, e que podem muito bem terem sido realizadas com fins egoístas. Para o filósofo, o que deve determinar o agir é a lei moral. Essa lei moral é constituída pelos nossos valores morais. Não se trata de saber se devo mentir ou não devo. Trata-se de encontrar o que está na base da minha opção pela mentira ou pela honestidade.
"Age apenas segundo uma máxima tal que possas ao mesmo tempo querer que ela se torne lei universal", ou seja, não faça nada que não possa ser adotado como exemplo para o mundo. Assim, a fórmula kantiana não nos diz para agirmos desta ou daquela maneira, não nos dá o conteúdo da lei, apenas nos indica a forma como devemos agir.
Contudo, nos dias atuais notamos que está cada vez mais distante de nossa realidade seguir uma vida moralmente plena. Agir conforme o dever, apenas porque tem que se agir desta forma acaba sendo a regra. Não usamos a nossa Razão, e nos esquecemos dos valores morais.
Infelizmente a maioria das pessoas só se interessam em ajudar o próximo visando um meio para obter algo. Com isso o ser humano acaba sendo instrumentalizado. Ele é um degrau a ser subido para se chegar ao topo, no tão esperado sucesso.
A regra do dia é ser bem sucedido, ganhar bem, mesmo que para isso precise passar por cima de outras pessoas. Desta forma, não vemos o outro como um ser igual, um ser humano. Vemos como um objeto, uma coisa. Assim, ele acaba coisificado pelo sistema, e ao ser coisificado, vira um número, um dado nas estatísticas.
E qual a solução para este fim terrível? A meu ver, temos que ter uma boa educação e uma boa formação moral, com valores e virtudes bem definidos, para termos condições de identificar as mazelas de nossa sociedade vigente. O começo para a mudança é prestar mais atenção naqueles que estão ao nosso lado, e assim por diante, como em uma corrente.


Escrito em 10/08/2009.

Ida ao teatro: Obscena Senhora D.

Impresso sobre a peça impecável. Boa fotografia, bom resumo. Boas expectativas sobre a peça. Há alguns anos sou fã, se assim pode se dizer, de Hilda Hilst (escritora de Jaú, conhecida mais no mundo do que no Brasil). Seria uma honra ver uma encenação de “Obscena Senhora D”.
Munida do meu ingresso de estudante – sim, ainda sou estudante – fui ao SESC na última quinta-feira. Gosto do SESC acho que lá as coisas funcionam, uma amiga me transportou (lembrem-se ainda estou me reabilitando), parou na vaga de deficientes para eu não ter que andar tanto. E não é que as coisas lá funcionam mesmo!
Chegamos quinze minutos antes do horário. Como não haviam lugares marcados entrei na fila. Entramos no teatro, aconchegante, com o problema de não ser inclinado, ou seja, quem estava na quarta fileira – meu caso – já não enxergava muita coisa. A Obsecena Senhora D. já estava no palco, mas as luzes ainda estavam acesas. Nisso uma senhora, quase obscena, levanta e faz o seu ato. Dizendo que estava incomodada com o barulho, e que a peça já havia começado (para ela poderia ser). No entanto, a peça não havia começado de fato. Mas a Obscena Senhora D. já provocava o público presente. Isto que é o mais legal e interessante do teatro, ele incomoda, provoca, instiga, e o público participa. O ator encena diante do público mesmo, e não diante de um aparato tecnológico, como os atores de cinema e tv.
Apagaram-se as luzes e a peça começou. Todo um frisson tomou conta daquela sala, as pessoas estavam inquietas e não sabiam qual reação ter diante da atriz que encenava Hillé ou Senhora D. Alguns riam, outros ficavam parados. A minha dúvida é se riam porque achavam engraçado ou por achar que deveriam rir. Logo as indagações metafísicas surreais tomaram o tom: "E o que foi a vida? Uma aventura obscena, de tão lúcida". As pessoas presentes se inquietavam nas poltronas, tentavam entender o monólogo que estava diante dos seus olhos. A atriz provocava, estava impecável como a obscena. No vão da escada de sua casa escura, essa obscena Senhora D. nos contempla através dos buracos dos olhos das máscaras. Para falar "dessa coisa que não existe mas é crua e viva, o Tempo", para cuspir em nosso rosto a pequenez, a perdição humana, para dizer que "ninguém está bem, estamos todos morrendo". Enquanto se dissolvem no aquário peixes pardos recortados em papel. O monólogo aguça ainda mais a imaginação do público, temos que montar mentalmente a narrativa e as cenas. Contudo a peça não fica cansativa e nem vulgar, apesar de obscena. Sons, gritos, urros, rouquidões. Impossível aventurar-se no texto de Hilst sem entrega. Inútil munir-se apenas das armas da razão. Hipnótico, o discurso envolve como águas – às vezes lodosas, às vezes claras – e numa vertigem nos arrasta, de susto em susto, cada vez mais para perto daquilo onde tudo pode acontecer. Traiçoeiras e sensuais, as palavras ofegam e palpitam, como se tivessem carne, sangue, músculos, nervos, ossos. Sempre se pode gostar de porcos. Gostar de gente, também. Espero que depois de terem assistido a essa peça ninguém tenha saído ileso. Como não se sai, afinal, da própria vida.


Escrito em 31/07/2009.

Terapia para todos!

Fazer terapia devia ser direito de todos. Sempre pensei que fazer análise devia ser serviço prestado pelo SUS. Terapia é muito caro, uma sessão custa em média cem reais. Quem pode pagar? Apenas pessoas que ganham razoavelmente bem, ou seja, os mais favorecidos na esfera social. Contudo, há alguns lugares, como universidades, que oferecem esse serviço a preços mais acessíveis (geralmente com estudantes de psicologia).
Outra coisa. Infelizmente em nosso país muitas pessoas (o senso-comum) têm preconceitos enraizados – desde não sei quando – que mistificam a prática de ser analisado. A maioria acredita que quem procura ajuda psíquica ou é louco ou não tem capacidade de resolver os próprios problemas. Mas não é nada disso.
É muito interessante você marcar um horário, posicionar as suas idéias, falar e, principalmente, se escutar. O exercício de escutar a si mesmo é o lance mais importante. Quando paramos e nos escutamos podemos refletir a atitude que tomamos frente a um determinado problema ou situação. Quem nunca fez terapia fica imaginando e geralmente não entende quem faz.
Um alerta importante: se você quiser fazer terapia, procure se informar e pesquisar se o profissional escolhido é capacitado, e se estudou todas as vertentes do comportamento humano. Temos que tomar cuidado para não cair em armadilhas, ou em golpes de pessoas oportunistas.
Aqui no Brasil temos, em linhas gerais, a Psicoterapia Comportamental; a Breve (foca no problema atual); a Psicoterapia Corporal (trabalho com o corpo); a Psicanalística (Freud e seus seguidores) e a Psicoterapia Junguiana (baseada em Jung, dissidente de Freud).
* * *
Neste mundo moderno, no qual a velocidade e as relações inter-pessoais são fragmentadas e interesseiras, a terapia se torna imprescindível. O problema desta velocidade do mundo moderno em relação à terapia é justamente o seu “tempo de tratamento”. Muitos acham um absurdo fazer terapia por anos e anos, é mais fácil tomar um comprimido com ação imediata, dormir e esquecer as suas angustias, ao invés entender o porquê, o motivo que gera a angustia ou o trauma.
Temos temores e inquietações que muitas vezes não sabemos nem de onde surgem. A solidão nos assola mesmo quando estamos no meio da multidão.
A modernidade traz esse sentimento de pequenez diante da grandeza do mundo. Não nos entendemos e nem entendemos o outro. Georg Lukács em seu livro, A teoria do Romance (1916) – mesmo sendo considerado teoria literária – analisa o homem dentro do contexto das suas produções literárias; da epopéia ao romance.
Lukács fala-nos de um tempo em que não havia necessidade de filosofia, porque todas as explicações eram encontradas nos mitos. Esse era um tempo sem dúvidas, portanto, sem necessidade de respostas. O mundo era um universo fechado. Já o mundo atual ganhou em abrangência e incoerências, e o homem conheceu a solidão. É a ruptura entre o sujeito e seu mundo, o momento em que a totalidade deve ser buscada, em meio a um ambiente fragmentado.
Cito esse ensaio de Lukács por achar pertinente a discussão, e integrar o lado positivo do tratamento psicológico nos dias de hoje. Porque muitas destas neuroses, ansiedades e angustias que muitos médicos tratam com anti-depressivos (tarja preta) podem ser resolvidas na terapia. Na França é assim, o serviço público de saúde trata muitas patologias com a terapia. Estudos de lá comprovam a eficácia do tratamento. Fora que reduz custos com medicamentos. O Estado adora redução de custos e de leitos em hospitais, poderia aderir a terapia para todos!

Escrito em 26/07/2009.

Experiência empírica

Estava pensando no decorrer destes dias no que escrever. O que seria interessante e ao mesmo tempo enriquecedor? De sexta para cá estive zanzando por ai e acabei encontrando o meu tema.
Como eu já disse em um texto anterior, “estou meio paradinha”, por causa de uma cirurgia no joelho que eu me submeti há quase 30 dias. Desta forma, sou uma “deficiente” temporária (já posso circular por aí com a minha muletinha).
Mas aonde eu quero chegar contando a vocês sobre a minha vida pessoal? Chegarei lá.
Na última sexta-feira, fui com a nossa colunista Camila à casa noturna Santa Madalena prestigiar a banda bauruense Move Over. Achei que seria moleza. Logo na entrada fui surpreendida com o primeiro obstáculo: uma escada!
Subi com a ajuda da minha fiel muleta e com a paciência da Camila.
O segundo obstáculo era cruzar o bar rumo ao camarim da banda.
Na minha cabeça as pessoas iriam ver que eu estava de muleta e abririam caminho. Tolice. Tinha que parar e cutucar as pessoas para poder abrir caminho.
No fim da noite fomos pagar os cartões de consumo, e uma garota pediu para passar na minha frente, eu deixei, a Camila ficou indignada com a falta de bom senso da menina.
No dia seguinte fiquei pensando sobre a minha aventura. E cheguei à triste conclusão de que um cadeirante, logo de cara, já não poderia assistir ao show da Move Over. A casa noturna, como muitas outras – para não falar todas – não tem acesso para deficientes. Uma pessoa que é impossibilitada de subir escadas teria que ser carregada para ter acesso ao palco. Na minha opinião, seria um tipo de humilhação depender de alguém para entrar em uma balada. Seria muito mais justo e humano ter acesso facilitado.
Conversando com um amigo advogado, ele afirmou que casas noturnas, bares, enfim, lugares que as pessoas freqüentam, só terão obrigatoriedade por lei em facilitar o acesso em 2013. Até lá as pessoas portadoras de necessidades especiais ficam sem ir à esses lugares?
No domingo tive outra experiência, que seria normal e corriqueira: fui ao supermercado. Como ainda não posso dirigir fui com a minha mãe. Falei para ela parar na vaga de deficientes. Justo, já que tenho certa dificuldade em caminhar. O supermercado Confiança Max possui duas vagas para deficientes ao lado do quiosque do MacDonald’s, o que leva a maioria das pessoas pensarem que são vagas que ninguém usa, e não há mal nenhum em estacionar ali. No lado oposto do estacionamento há vagas para idosos, e eu vi muitos não-idosos estacionados ali.
Essas atitudes me levam a crer que as pessoas não têm bom-senso. O bom-senso nos dias de hoje é uma postura tão cara, que se configura como uma Virtude.
Enfim, entrei no mercado e fiz a compra. Só que no decorrer me deu vontade de ir ao banheiro (coisa mais normal do mundo): outro transtorno.
Estava perto das bebidas e entrei no banheiro mais próximo, e era para deficientes. Claro que estava trancado à chave (nada pode ser fácil nesta vida). Pedi ao funcionário a chave, que mais parecia um bem precioso guardado em cofre. Cinco minutos depois ele aparece (contei no relógio). Numa dessas se estivesse muito apertada...
Achei que a missão “banheiro” já estava concluída quando olhei para o vaso sanitário e estava totalmente sujo (eu sei que não é legal falar sobre isso). Usem a criatividade e imaginem o “sujo”. A missão foi abortada por motivos óbvios.
Muitos podem pensar: O que essa menina quer saindo por ai? Por que não fica em casa? Ela está doente, não pode sair. Mas a verdade é que não estou doente, estou me recuperando, e parte da minha reabilitação é ter uma vida normal. O problema é que a configuração da mentalidade da nossa sociedade dificulta ainda mais o que já é difícil.
Vamos tentar ser menos egoístas, porque não sabemos o que nos aguarda no futuro.


Escrito em 19/07/2009.

Preguiça das relações

Hoje em dia temos – nitidamente – preguiça em nos relacionarmos com as pessoas. É muito mais fácil ficarmos reclusos no mesmo “grupinho” e não nos aventurarmos em novas relações pessoais (reais).
Um dos fatores que elevam o índice das pessoas não se interessarem mais no conhecer, no relacionar-se é a Internet. Mas aí você pode dizer: Mas com a Internet podemos conhecer pessoas, mandar e-mails, bater-papo. Sim, podemos fazer tudo isso e muito mais. Contudo as relações são superficiais.
Não há o contato, a troca de olhares ou a cumplicidade de uma relação mutua entre as pessoas. Esse contato verdadeiro, não virtual, está cada vez mais escasso, as pessoas se limitam, e essa limitação é confortável. Se não queremos falar com determinada pessoa, ao invés de resolvermos o nosso problema com ela, simplesmente, a bloqueamos ou deletamos.
A Internet é uma ferramenta, e não uma condição para nos inter-relacionarmos uns com os outros. Ela limita e corrompe. Porque o que fazemos no mundo virtual queremos transpor para a realidade. A realidade, que deve ser tomada como verdade, está sendo subjugada pela virtualidade.
Outro problema do mundo virtual está ligado à criminalidade. A maioria das pessoas acredita que as leis do mundo real não se aplicam ao mundo virtual. Criam um avatar, um fake, e podem tudo. Estão legalmente protegidos em suas casas diante do aparato tecnológico. É a partir desta mentalidade que casos de pedofilia cresceram tanto. A pedofilia sempre existiu no mundo, esse tipo de perversão é antiguíssimo. Mas com as possibilidades oferecidas pela virtualidade, a pedofilia, aumentou. Em uma reportagem do programa CQC (exibido as segundas, pela Band), na qual simulavam o quarto de uma adolescente de 15 anos, numa sala de bate-papo, vários homens maduros procuravam falar com a menina, e o único assunto era sexo e a exibição do órgão genital para sexo virtual. No mínimo asqueroso.
A meu ver isso é resultado dessa preguiça das relações, é muito mais fácil sexo virtual do que real, para pessoas sem conteúdo e com esse grau de perversão.
Os e-mails, por exemplo, são uma ótima ferramenta. Não apenas para nos comunicarmos, mas para divulgarmos eventos também. O perigo é o de se tornar uma forma para não se indispor com as pessoas, como nos bate-papos. Como assim? Ao invéz de solucionarmos uma situação frente-a-frente, mandamos um e-mail. É uma forma rápida de não ignorar o outro e ao mesmo tempo se livrar da situação indesejada. O perigo é se instaurar uma frieza, comparada ao fascismo.
As pessoas preferem dizer, “melhor não”, do que serem autênticos e sinceros. Acreditam que seja melhor falar por meias verdades do que na totalidade da verdade. Isso demonstra um traço de falta de personalidade. É mais fácil agir desta forma, porque conviver é difícil.
Viver em sociedade é comprometer-se. Fundamentalmente se comprometer com o outro, porque ninguém, por mais que queira, consegue viver sozinho e isolado completamente.
Nos dias de hoje esse comprometer-se é substituído de forma “higiênica”, pelos aparatos tecnológicos. E também, por causa do alto índice de criminalidade nos fechamos ainda mais. Não damos mais as mãos com medo de que nos levem o braço. Contudo, se pensarmos desta forma ficaremos sem nos relacionarmos. Como na letra exemplar de rap, A vida é desafio, dos Racionais Mc’s: “mundo moderno, as pessoas não se falam, ao contrário, se calam, se pisam, se traem, se matam”. Temos que mudar essa realidade, antes que nos tornemos seres não humanos.


Escrito em 14/07/2009.

Qual o valor?

Há algum tempo estou lendo um livro do Dostoievski, Os Demônios. Digo algum tempo remetendo um longo período, coisa que não é da minha preferência. Gosto de começar e terminar rapidamente as minhas leituras. Contudo, com tantas coisas e “prioridades” o livro não ficou nem em segundo, mas em décimo plano.
Como algumas pessoas que me cercam já sabem, estou paradinha – literalmente parada – por conta de uma cirurgia. Aí que a leitura volta a ter um destaque.
Enfim, pela manhã, lendo, encontrei uma passagem muito sugestiva para os nossos dias, que demonstra toda a atualidade e genialidade profética de Dostoievski (um dos maiores romancistas da literatura russa e um dos mais inovadores artistas de todos os tempos). A passagem é a seguinte:
“Toda a dúvida está apenas em saber: o que é mais belo, Shakespeare ou um par de botas, Rafael ou o petróleo?”
A frase me deixou, literalmente, de orelha em pé.
A título de esclarecimento, o livro Os demônios foi escrito através da motivação de um episódio verídico: o assassinato do estudante russo I. I. Ivanov pelo grupo niilista (em linhas gerais é a desvalorização e a morte do sentido, a ausência de finalidade e de resposta ao “porquê”) liderado por S. G. Nietcháiev em 1869. Um ano depois o livro foi concebido, com fins assumidamente panfletários.
O autor analisando o crime cometido pelo grupo niilista profetiza o que acontecerá posteriormente no século 20. Ele consegue vislumbrar os cruéis fanatismos de Hitler e Stálin. Desta forma, os demônios do título do livro são traduzidos como a violência, a ignorância, o terrorismo e a impostura ideológica. Estes demônios alegóricos mesmo no nosso século, o 21, continuam vivos sob novos disfarces.
Mas e a frase que eu escolhi? Por que me deixou de orelha em pé?
Em minha opinião ela retrata não só o que se passava nas pessoas, ditas práticas, do final do século 19. Mas ainda em nosso tempo muitos pensam: o que é mais importante, uma obra de arte ou um barril de petróleo?
O belo, o moralmente belo, está há muito tempo em decadência. Muitos – e muitos que eu digo podem se dizer muitos povos – se importam muito mais com as cifras e o poder do capital, do que com a beleza.
Shakespeare não tem a mesma utilidade – e ser útil é muito importante – de um par de botas. O importante é o valor de uso, de uso literal. Assim muitos podem achar mais importante um par de botas do que ler e entender, efetivamente, Shakespeare.
Mas por qual motivo deixamos de acreditar no abstrato em nome do útil?
Passamos a dar mais valor àquilo que é útil, na medida em que o capital se tornou essencial. Quando passamos a nos sentir bem consumindo um produto concreto. Ou seja, um produto que podemos mostrar às outras pessoas. A sociedade capitalista tornou-se exibicionista e arrogante.
Seguindo essa linha, não podemos mostrar, de fato, o livro de Shakespeare que acabamos de ler. Mas podemos mostrar o carro zero km., financiado em várias parcelas. É isso o que realmente importa, infelizmente, em nossa sociedade. Mesmo se você não tenha dinheiro para pagar todas as parcelas do financiamento, quem se importa? Mas você está figurando pelas ruas com o seu carro zero.
Na sociedade contemporânea capitalista é assim. Já afirmava Guy Debord no seu livro A sociedade do espetáculo (1967), a mercadoria virou espetáculo. A arte e a beleza não cumprem mais o seu papel conciliador na sociedade.
Debord explica que o espetáculo é uma forma de sociedade em que a vida real é pobre e fragmentária, e os indivíduos são obrigados a contemplar e a consumir passivamente as imagens e as mercadorias de tudo o que lhes falta em sua existência real. Fica a reflexão: Como mudar algo já estabelecido e consentido por todos?


Escrito em 04/07/2009.

Os Movimentos Feministas: resistências verbais e não verbais

Sim, movimentos no plural. Descobri que não existe apenas um movimento feminista. Ao longo da história podemos notar várias manifestações pela igualdade das mulheres, configurando, assim, no plural.
Na Grécia Antiga a importância das mulheres era equivalente a dos escravos. Porque cidadão mesmo era só do sexo masculino e nascido por lá. Somente estes podiam participar da chamada democracia ateniense e ter a palavra na ágora (praça principal símbolo da democracia direta). Ou seja, para as mulheres nada.
Já na Roma Antiga elas eram consideradas perigosas. Principalmente quando tentavam reverter a situação vigente. Como no caso do uso dos transportes públicos. Porque os transportes públicos daquela época eram restritos aos homens-cidadãos. Mulher não era cidadã, logo, não podia usar esse serviço. Para todo lugar que a mulher romana queria se locomover tinha que ser a pé. Revoltadas marcaram hora com o Senado. Expuseram a situação. Mas não deu em nada. Continuaram a pé. O Senado Romano achou perigoso demais deixarem as mulheres se locomoverem usando os meios de transportes públicos, pois se abrissem essa exceção logo elas reivindicariam outras melhorias.
No longo período da Idade Média, ao contrário do que muitos podem pensar, o espaço de atuação política da mulher era maior. Elas atuavam em quase todas as profissões, e algumas freqüentavam universidades. Infelizmente na Renascença houve retrocesso e a caça às bruxas – milhares de mulheres foram queimadas vivas. Quem não se lembra de Joana d`Arc?
Todas essas primeiras vozes de contestação feminina que a história moderna registra se dirigem justamente contra a desigualdade sexual no acesso à educação e ao trabalho. As mulheres não queriam nada de extraordinário, não queriam tomar o poder de ninguém, apenas queriam e querem ser iguais.
Uma das formas de resistência e contestação feminina, não verbal, se configura quanto ao vestuário. É curioso notarmos que hoje as nossas roupas derivam, em parte, do estilo adotado pelas mulheres das classes média e operária do século 19, cujo comportamento não correspondia ao ideal feminino vitoriano da época.
Até no jeito de nos vestirmos tivemos que ir à luta!
As mulheres do século 19 romperam com o estilo dominante de vestuário – eficiente para manter fronteiras de gênero – quando começaram a trabalhar: as roupas tiveram que ser ágeis para facilitar os movimentos dentro do escritório, por exemplo.
Esse novo estilo, barato e descomplicado, cruzou as fronteiras de classe. Incorporava peças de roupa masculinas à vestimenta feminina (mas era distinto do cross-dressing), representava, consciente ou inconscientemente, uma forma de resistência ao estilo do vestuário dominante.
Representou uma espécie de inversão simbólica da mensagem dominante do vestuário feminino ao associá-lo ao masculino. Itens ligados à indumentária masculina ganharam novos significados. A tão esperada independência feminina estava a caminho. Contudo, o grau de controle social, na forma de hostilidade e zombaria que elas encontravam nos espaços públicos, tornou preferível uma forma amena de subversão simbólica: paletós e gravatas eram combinados com saias em vez de calças.
Somente na segunda metade do século 20 que as mulheres puderam usar calças. Graças às feministas lésbicas. As feministas dos anos 60 e 70 opunham-se às roupas da moda. Simone de Beauvoir definia a visão de moda das feministas, e criticava os discursos manipuladores sobre feminilidades latentes nos estilos de vestuário.
A primeira manifestação de massa do movimento de liberação feminina foi dirigida contra o concurso de Miss América em 1968, mais especificamente contra o estereótipo do corpo feminino como objeto sexual representado pelo concurso.
De lá para cá estamos em constante luta para a nossa igualdade.


Escrito em 29/06/2009.

Acreditar é preciso

Acreditar em sonhos, e sonhar, é imprescindível para mantermos a esperança de vivermos buscando sempre a felicidade, porque ela nos mantém vivos. Quando o tempo fecha, não podemos nos abater, temos que ter coragem para seguirmos sempre em frente. Um dos pilares que solidificam as nossas bases para termos coragem é a família, fonte de amor. O amor é a única verdade universal, mantém a fé.
Estamos a cada dia nos esquecendo dos verdadeiros valores e virtudes dos seres humanos. E, desta forma, nos esquecendo de cultivar nas crianças – na educação – a idéia de pensar no futuro, ou seja, à longo prazo. Desde o nascimento as crianças não sentem nem ódio e nem ganância, a sociedade que acaba moldando esses valores e corrompendo. Já dizia o filosófico: “O homem por natureza é bom, a sociedade que o corrompe”. Se continuarmos nesse ritmo até as crianças serão corrompidas, desde muito pequenas, por esse mundo que só preza o consumo, o material e a aparência.
Quem tem muito quer ter mais, quem não tem nada quer ter algo. Esse ter, adquirir, possuir, é sempre o capital: o dinheiro. Hoje em dia, mais do que em qualquer outro tempo, em qualquer outra época, o dinheiro tornou-se o regulador moral das pessoas, da índole das pessoas.
Nessa busca sem valores pela felicidade esses indivíduos se perdem no caminho de suas vidas: “O rico teme perder a fortuna, o desempregado se afunda”. Os fracos se viciam nos entorpecentes, nos jogos e na banalidade. A ambição cega. O caminho da vida acaba sendo totalmente incerto.
As pessoas não falam mais a língua do amor, só a da ambição e da falsa união. Passam por cima uns dos outros se esquecendo que somos iguais, pares, irmãos. Nesse mundo da velocidade, infelizmente, o que vale é ser como um carro desgovernado, como aquele que não vê nada à sua frente. As pessoas se esbarram e se olham com agressividade, com preconceito, com soberba. Na maioria das cidades é assim, você espera um afeto e só vem preconceito, hostilidade e pressa, muita pressa. No fundo as pessoas, no seu íntimo, sonham com a liberdade, em ficar longe da maldade.
Não existe classe social para sonhar com justiça, honradez e felicidade. Quem mora num barraco de um cômodo, com uma janela, também tem os mesmos direitos. (infelizmente não é isso que acontece na realidade). Na real quem mora num barraco é sempre marginalizado. Não adianta se esforçar, será sempre um excluído. O futuro de quem mora num barraco será ser jogador de futebol, lutador de boxe ou laranja do tráfico. Nem o sonho lhe é de direito. E quando sonha não consegue ir muito além de sua realidade: sonha com uma medalha, com uma garota bonita, com o almejado lugar ao sol. Sonha com essas coisas porque não tem estudo, não tem educação.
Há mais de 500 anos o Brasil nutre esse formato socioeconômico, no qual ricos permanecem ricos e pobres permanecem pobres, e a população média flutua neste universo.
Contudo, a vida não pode ser encarada como um obstáculo incessante, e sim como uma lição a ser vencida e aprendida a cada dia.
A criminalidade não pode ser desculpa para as mazelas do nosso país. É claro que com essa realidade é bem mais fácil roubar do que estudar, mas ninguém disse que vencer e ter virtudes é algo fácil. Ser uma pessoa moralmente boa é dever, um dever ser. Uma lei moral a ser seguida, para vivermos em harmonia.
A vida é aprendizado, temos que ser persistentes para podermos alcançar as metas estabelecidas através dos nossos sonhos.


Escrito em 23/06/2009.

Ilusão mágica

Mágica do teatro. Pensando bem. Não só do teatro, mas também a do circo, de todas as apresentações que você tem contato com o todo do que está acontecendo. No cinema isso não ocorre. Na sala escura, gelada com a temperatura regulada pelo ar condicionado, o que vemos são reproduções. A mágica se perde quando a reprodução em série se instaura. Desde a xilogravura a arte(sanal) se reproduz. Mas a reprodução ainda não é em série. A imprensa se desenvolve e se multiplica. A fotografia surge. Com isso o pintor não precisa mais ir até o lugar que deseja pintar. Ele manda fotografar. Da fotografia sai o quadro. Ponto para a reprodução fotográfica. O sujeito-artista se enclausura. Ele não precisa mais sair de casa e se relacionar com o mundo para pintar o seu quadro, a sua interpretação da realidade. A verdade do quadro advém de uma (in)verdade, advém de uma representação captada pelo olho de alguém. E se ela é uma representação captada pelo olho de alguém ela já sofreu interferência. Já é interpretação. Portanto, o quadro pintado a partir de uma fotografia, mesmo que encomendada, é uma interpretação da interpretação. A foto se desenvolveu, ganhou movimento. O cinema surge. O século XX é o século do cinema. A arte é democratizada. As massas, à noitinha, no final do expediente vão para as filas dos cinemas. As massas, pela primeira vez, têm participação na arte. Porque agora, reproduzidas em películas são mais acessíveis. Não são como uma grande ópera. Onde somente a elite pode ter acesso. Outra coisa. O cinema, além de entreter também tem função terapêutica. Há quem diga que a função terapêutica se dá como nas vacinas. Mas como funcionam as vacinas? Quando após a aplicação a vacina atinge a corrente sangüínea. Lá o vírus ou a bactéria chamará a atenção das células de defesa. Produzirão um anticorpo contra o invasor. Depois de liquidar o falso inimigo, as células defensoras memorizam seu perfil e ensinam outras integrantes do sistema imunológico a atacá-lo. Se o organismo entrar em contato com o legítimo vírus ou bactéria, já terá todo o esquema armado para reconhecê-lo depressa. Quando corre o risco de se esquecer da estratégia, doses de reforço servem de treinamento. O cinema funciona exatamente da mesma maneira. Quando a noitinha os trabalhadores pegavam os seus bilhetes e rumavam às suas poltronas. Assistiam ao filme. O filme os preparava para viver na modernidade. Com todos os planos de seqüências, montagens, cortes nós nos acostumamos à rapidez da máquina que agora se insere no nosso dia-a-dia. Reza a lenda que em uma pequena cidade européia foram passar um filme. Na película, um trem desgovernado seguia em direção à tela. Como se fosse sair da tela. Num plano diagonal. Os espectadores, aterrorizados, saíram correndo do cinema. Acreditaram que o trem ia literalmente sair da tela. Seria uma tragédia, se não fosse ilusão. Essa ilusão do cinema, como nas vacinas, que nos prepara para a vida moderna. O cinema estimula o nosso inconsciente óptico. Através dele memorizamos os golpes de imagens e dos “absurdos mágicos”, dos efeitos especiais. Evitamos às neuroses. Esse é o valor terapêutico do cinema. Hoje precisamos de cinema 3D para sentir algo a mais na nossa imaginação. Dê preferência os bem trash. Que exploram o grotesco. Como um que eu assisti há alguns meses no cimema,Dia dos namorados sangrento (My bloddy Valentine). Filme que explora apenas a tecnologia 3D, e se esquece de todo o resto. A poesia foi esquecida em nome de uma racionalidade técnica.


Escrito em 08/06/2009.

Dia dos Namorados ou mais uma data do comércio?

O psicanalista e teórico crítico, Erich Fromm, já afirmava: “O amor é a única resposta sadia e satisfatória para o problema da existência humana”. Mas qual amor? Amor entre pais e filhos? Entre os familiares? Entre os irmãos de credo? Entre os povos? Ou entre os objetos de amor? No quais esses podem se tornar fetiches, que podem amenizar dores e suprirem carências.
A desintegração do amor na sociedade ocidental contemporânea tem íntima relação com o enfraquecimento dos vínculos pessoais. Hoje, por exemplo, nos relacionamos muito mais com os aparatos tecnológicos do que com as pessoas. Usamos a tecnologia como mediadora dos nossos relacionamentos.
Quando relacionamos o amor, com a data Dia dos Namorados, notamos o esquecimento do sentimento único, verdadeiro e transcendental para nos lembrarmos das compras, de não repetir o presente, de ser criativo (?). Propagandas televisivas de lojas locais apelam: “Neste mês dos namorados não dê vexames, dê presentes”. A Tela Quente exibiu a tosca comédia romântica de 2006, “Minha super ex-namorada”. A mídia também explora a sua fatia. A televisão abusa do tema e agradece pela data, porque a falta de criatividade das programações é grande!
E o sentimento? O verdadeiro laço sentimental é explorado, desenvolvido? A data criada para celebrar as uniões pelo amor só interessa aos donos de lojas que ficam abertas até às 22 horas na quarta, véspera de outra data, o feriado cristão de Corpus Christi (não muito “explorado”). Os funcionários, na sua quase totalidade, trabalham sem comissão adicional, ou seja, ganhando o mesmo que se fizesse expediente normal. Assim, como é de praxe, somente a figura emblemática do patrão é quem realmente lucra.
No macro universo virtual da Internet notamos portais como o Yahoo! Em destaque: “É o Amor! Yahoo! Lança site de Dia dos Namorados”. Lá podemos encontrar de tudo, desde dicas bacanas de presentes até motéis e restaurantes. O enunciado é dos mais cafonas: “Presente, jantar, troca de olhares, declarações e uma noite de amor para fechar com chave de ouro esta data. Vale a pena gastar um pouquinho mais e ter momentos felizes depois para recordar. Veja algumas sugestões de motéis para esquentar ainda mais o clima”, segue na seqüência a listagem dos motéis por ordem de preço ($$ - $$$- $$$$). Temos ainda que adequar o nosso gosto ao bolso. É a economia.
O pior ainda está por vir... Se você não tem namorado, tudo bem. Logo na “primeira página” do site encontramos a “janelinha” Yahoo encontros!, também com um enunciado: “Não tem ninguém para comemorar o Dia dos Namorados? Encontre seu futuro amor aqui!”.
Como assim? O meu futuro amor pode ser um encalhado que confia o seu próprio destino num site criado às pressas para estar na onda da data comemorativa? É muita pretensão de mercado.
O mais ridículo é o link: “Jogos para eles e elas”. Esse link dá raiva porque quando clicamos nele, pensamos que são jogos picantes para um momento a dois. Quando abre o link vemos que são jogos comuns do Yahoo!Games. Mais uma vez ponto para o item de site criado às pressas com sensacionalismo para prender a nossa atenção.
Infelizmente nos preocupamos com esses temas tão menores das nossas vidas. Liberamos muito tempo de nossas vidas com essas coisas, porque caso não fosse assim não teriam tantas matérias sobre esse assunto.
As pessoas ainda gostam de ler sobre “como apresentar um namorado à família”. A matéria intitulada: “Prazer em conhecer? Conheça alguns macetes para evitar constrangimentos na hora de levar seu affair em casa”. Esse é um exemplo de temas que concernem à moral e aos bons costumes de uma sociedade moralista. Ainda estão em alta.
A nós cabe apenas a reflexão de que se o amor seria uma arte?


Escrito em 08/06/2009.

Teoria Crítica, sociedade e Indústria Cultural

Nesta semana decidi falar especificamente de Filosofia, em especial, de uma “ramificação filosófica” contemporânea que discute temas relativos às condições de produção e recepção dos bens culturais sob a regência do capitalismo tardio, sobretudo, após a segunda metade dos anos 1930.
Esta “ramificação filosófica” – que no Brasil ficou conhecida como Escola de Frankfurt (nome da cidade alemã que abrigava o instituto) – era formulada pelos teóricos críticos que integravam o Instituto de Pesquisas Sociais. Horkheimer (então diretor do Instituto) inovou propondo uma “Filosofia Social”. Adorno que teorizou também sobre música. Herbert Marcuse, conhecido como “o filósofo”. Os “companheiros de viagem”, ou seja, aqueles que participaram de forma incisiva, porém não oficial: Walter Benjamin e Erich Fromm (entre outros).
Poderia me remeter a várias ramificações deste pensamento filosófico, aqui ressaltarei o lado estético, ou melhor, a nova guinada estética que ocorre nos anos 1930 e que ainda hoje tem influência na vida intelectual, traduzindo o clima criado pelo nascimento da arte moderna e pela irrupção dos movimentos de vanguarda.
Contextualizando. Todos esses pensadores abasteceram-se nas mesmas fontes filosóficas: no Idealismo e no Romantismo Alemão, de Kant, Hegel, Fichte e Schopenhauer. Todos naquela época lêem Marx, Nietzsche e Freud. Todos são afetados pelos temas do declínio, da decadência das crises que concernem tanto às ciências, ao conhecimento, aos valores tradicionais e às antigas certezas, quanto às artes e à cultura.
Neste mesmo período alguns filósofos dataram o início da decadência numa perversão da razão nascida a partir do século das Luzes, porém, encontram os primeiros sintomas da doença inerentes à racionalidade de Homero. É neste clima que surge o livro emblemático e multidisciplinarmente conhecido: A Dialética do Esclarecimento (1947).
Redigido por Adorno e Horkheimer nos EUA (quando estavam exilados por conta do nazismo na Alemanha), constitui-se como uma das obras fundamentais e mais citadas da Teoria Crítica. Nela os autores interrogam-se sobre o devir da arte e da cultura em geral na sociedade moderna.
Nos Estados Unidos os dois filósofos assistem ao prodigioso desenvolvimento das mídias, do cinema, da imprensa, do disco, da publicidade. A democratização cultural instaura o controle de uma nova forma de racionalidade, a da economia.

É neste livro que os autores forjam a famosa expressão de “Indústria Cultural”, para designar o aparecimento de uma cultura estandardizada, condicionada e comercializada segundo os modelos de bens de consumo. Caracteriza-se pela distribuição dos bens culturais, no qual o conceito de Cultura é rebaixado e é consolidada a cultura de massa.
Assim, o cinema e o rádio não passam de negócios, não são arte. Adorno e Horkheimer afirmam que “os automóveis, as bombas e o cinema mantém coeso o todo”. Portanto, a lógica da indústria cultural é tão necessária quanto a lógica econômica e bélica.
A Indústria Cultural, ainda nos dias de hoje, demonstra claramente que permanecemos neste nível cultural, massificado e industrialmente distribuído pelos estúdios de cinema, pelas emissoras de televisão, pelo rádio – e agora pela internet.
Após 62 anos da publicação deste texto a nossa sociedade continua atrelada moralmente à indústria do entretenimento. Nada escapa a essa indústria. Dos vídeos do You Tube aos filmes cults iranianos. De Hollywood à Bollywood.
O que nos resta é fazer crítica séria e tentar uma emancipação. A crítica deve ser imanente, feita dentro da própria estrutura capitalista, para sairmos dessa planificada cultura.


Escrito em 25/05/2009.

Direito de rever o voto

O ilustre deputado, fidalgo e bem criado, Fernando Ribas Carli Filho (PSB), não se atentou para as boas maneiras do trânsito. Acabou no último dia 7 de Maio, ceifando vidas inocentes – Carlos Murilo de Almeida, de 20 anos, e Gilmar Yared Filho, de 26 anos. Agora é esperado, ao menos, que seu partido político mostre para a sociedade que o parlamentar não é digno da legenda, expulsando-o do partido. Com a assembléia cassando seu mandato, indo a júri popular. Sendo condenado e preso, bem como a justiça cível condenando-o por danos materiais e morais. Mas a realidade nem sempre é tão justa, estamos caminhando.
Vamos voltar um pouco.
De início, a família e os amigos tentaram abafar a gravidade do acidente e suas circunstâncias. Chegaram a ponto de se valerem das relações políticas que mantém. O caso ficou restrito a um mero acidente com duas mortes, estando o motorista causador entre a vida e a morte.
A pressão veio por toda parte, fundamentalmente, das partes dos familiares dos dois cidadãos de bem. Cansados de impunidade utilizaram a internet para mobilizar os seus iguais.
A internet se tornou uma importante ferramenta na participação ativa da política, e desta forma, da justiça. Neste caso foi usada para difundir a realidade.
Desde que o fato foi noticiado, uma saraivada de e-mails foi disparada, inclusive para a mídia nacional. O bloqueio foi furado (mas ainda há resistência).
Começaram a surgir elementos essenciais do caso, tais como: a habilitação cassada do parlamentar, 130 pontos na carteira, suas 30 multas dos últimos 6 anos, 23 multas por excesso de velocidade, as quatro garrafas de vinho no restaurante antes de pegar o carro e coisas do gênero.
Eu mesma recebi um e-mail no dia 17. Tal e-mail, intitulado “Homenagem à Gilmar Yared Filho”, tem como propósito arrecadar pelo menos mil assinaturas digitais para serem enviadas à Assembléia Legislativa do Paraná.
É lá que estão providenciando os procedimentos legais que serão adotados para analisar o pedido de cassação do mandato do deputado. O documento cobrando a perda de mandato por quebra de decoro parlamentar, já foi protocolado na Assembléia pelo advogado da família de Gilmar Yared Filho.
Pesquisei na internet sobre essa notícia. Encontrei a carta de Gilmar Yared, pai de uma das vítimas. Ele critica a TV paranaense, por ter editado o material gravado, beneficiando o deputado, amenizando os fatos. Indignado, afirma que o Poder Público está à disposição do deputado. E ainda, que no hospital, enfermeiros comentaram “que foi encontrado cocaína em seu sangue e tudo sendo escondido pelas autoridades, médicos e imprensa”.
Ainda na carta, Gilmar, relata coisas ainda mais obscuras neste caso, que despercebido pode parecer com mais um acidente de transito. O seu irmão, apresentador da TV Educativa, foi afastado de seu programa. Prossegue, “na CBN colegas jornalistas estão indignados com o cerceamento de informações”.
É assustador imaginar perder um filho, e ainda por cima, ter a sua vida de seus familiares modificadas para sempre.
Para que esse Estado de terror não seja imposto, para que o povo mantenha os seus direitos, é importante todos se juntarem a essa campanha e encaminharem e-mails para os seus contatos. É só acrescentar nomes e enviar, quando chegarem a mil nomes, para o corregedor-geral da Assembléia Legislativa, Deputado Luiz Accorsi (PSDB), para o Ministério da Justiça e para o Presidente da República.
O importante agora é provar que as mesmas pessoas que elegem um deputado, também têm consciência para saber o que é melhor para a sociedade.


Escrito em 18/05/2009.

Absurdos Inesperados

Estava pensando sobre o que escrever nesta semana, e eis que na quarta-feira à noite eu recebo um panfleto de um grupo de alunas da USC, elas apresentavam um seminário sobre ética do embrião. Resumindo, esse panfleto era do Hemonúcleo do Hospital de Base de Bauru, em parceria com a IESB, sobre como se tornar um doador de sangue. Tudo normal. Tudo nos padrões.
Comecei a ler e notei algo estranho, na verdade, bem estranho. Havia um tópico que dizia: “não ter hábitos homossexuais e bissexuais”. Grifei. E esperei. Fui para casa e, inconformada, fui pesquisar no “grande oráculo” moderno, o Google. Descobri que essa mesma frase maldosa, criminosa e preconceituosa está em vários sites, matérias de jornais e informativos de todo o país. Do Acre ao Rio Grande do Sul.
Me pergunto: quando este informativo foi escrito? Quem o fez? Será que ninguém se atentou para o fato de que esta frase enraíza o preconceito? Em vez de esclarecer, esse tipo de material – que segue a linha: “O que você deve saber antes de doar sangue” – serve para mitificar ainda mais a sociedade. Simplesmente porque essa informação não expressa a verdade. Ela é falsa.
Analisando. Como um governo democrático não tomou conhecimento da circulação desta informação? Acho que por falta de atenção. Não há diferença biológica entre gays, lésbicas ou simpatizantes. Heterossexuais não têm sangue “melhor”. Sangue é sangue. Na hora que você está em um leito de hospital, precisando receber sangue, certamente não perguntará se aquele sangue é de algum gay.
Só para constar, não existem mais os “grupos de risco”. Hoje em dia, todos nós estamos em risco. Na porcentagem, mulheres casadas com mais de cinqüenta anos estão entre os novos portadores do vírus do HIV.
Ainda analisando. Como assim ter “hábitos” homossexuais e bissexuais? Então podemos concluir que ser gay é um hábito? Nós temos o hábito de dormir tarde, temos o hábito de usar jeans, o hábito de não comer nada pela manhã. Agora, a orientação sexual não pode ser um hábito, tem que ser, no mínimo, uma escolha.
Concluindo. Frases como essas só servem para emburrecer o povo, isso é mitificar. É pegar um conceito já desmistificado e inserir um novo mito. Uma informação falsa como essa faz o mito do preconceito ganhar forças, e se instaura para sempre em nossa sociedade. Ele apenas se mutaciona. O preconceito pode vir, historicamente, de forma escancarada, como aconteceu na Alemanha nazista. A higienização de raças inferiores pelas superiores. Reflito sobre a Alemanha para ressaltar que não só judeus foram para os campos de concentração, mas também, ciganos e homossexuais (entre outros).
Essa foi a pior parte do informativo, a mais repulsiva e mentirosa. Mas não parava por ai. Nos tópicos seguiam: “Não ter hábitos promíscuos” e “não ser usuário de drogas”. Moralmente e legalmente condenáveis. Contudo, hábitos promíscuos remetem a “mocinha (o) que sai com todo mundo”. Ok. O que deveria ser explícito, no entanto, era a importância do uso de preservativo em TODAS as relações sexuais. Não importa se você transa com um homem e você é um homem. Não importa se é uma garota que gosta de transar com um monte de homens. O que importa é se nessas transas você está usando preservativo.
O mesmo com acontece com o tópico “não ser usuário de drogas”. É obvio que o uso de drogas não é algo bom, e nem legalmente permitido. Mas seguindo a linha de desmistificação, seria importante ressaltar neste tópico: “não compartilhar seringas”. Porque o objetivo do informativo é pré-selecionar o sangue coletado. Pensando assim, não só usuários de drogas que compartilham seringas terão o sangue descartado, mas também, aqueles pit-boys que compartilham seringas ao auto-injetar substâncias anabolizantes. O esclarecimento tem que prevalecer em uma sociedade democrática. Toda a forma de preconceito é repulsiva, não podemos permitir a propagação deste material impunemente, pois no governo do povo, o povo deve agir.


Escrito em 10/05/2009.

Moda: democratização e controle social

Outro dia estava pensando um pouco como as nossas roupas podem influenciar as nossas vidas, e cheguei a conclusão de que o nosso vestuário, o jeito como nos vestimos, pode ser considerado tanto como um instrumento de realce de si mesmo quanto uma forma de controle social. Porque as roupas da moda, antigamente e ainda hoje, podem ser usadas para elevar o capital social do indivíduo ou para limitar as suas funções sociais.
Durante o século XIX as roupas da moda eram acessíveis principalmente às classes média e alta, hoje em dia, com a democratização da moda isso se expandiu para todas as classes sociais, a moda está em todos os lugares, basta ter o chamado estilo e compor o seu look.
É claro que a moda como conceito é acessível a todos, mas qualitativamente não, sabemos que as roupas feitas em larga escala não possuem a mesma qualidade de uma peça única, porque há por trás o interesse “nobre” no lucro. E se usam tecidos de qualidade não sobra tanta margem para lucro. Marx já falara muito bem sobre isso no livro O Capital.
As tecnologias também desempenham o seu papel quando o assunto é democratização da moda, já que simplificam a produção de roupas, tanto em casa como em fábricas. Um exemplo deste fenômeno tecnológico são as máquinas de costura modernas que começaram a ser comercializadas (quase sempre financiadas) nos Estados Unidos no final do século XIX, e as mulheres puderam fazer as suas próprias roupas usando moldes oferecidos pelas próprias empresas que fabricavam essas máquinas de costura. Esse foi um fator decisivo e contribuiu para a democratização final das roupas.
Todo esse empenho da mulher do século XIX em se parecer socialmente de uma classe mais elevada demonstra a importância simbólica do vestuário e como ele pode ser uma ferramenta de realce de si mesmo, ainda nos dias de hoje.
Outro ponto de destaque é o uso de uniformes, que desde o século XIX representa um instrumento de controle social, imposto principalmente aos trabalhadores provenientes da classe operária. Os uniformes servem como lembretes úteis de que o conteúdo da comunicação interpessoal nos locais em que são usados deveria limitar-se a informações sobre a tarefa desempenhada, reforçando a separação entre classes sociais e mesmo entre empregador e empregado numa mesma casa.
Muitas empresas especializadas em uniformes utilizam slogans para mistificar o uso de uniformes como sendo algo enaltecedor, o que não o é. Facilmente podemos encontrar por aí empresas que dizem: “Usar uniformes significa mais do que praticidade. É também vestir a camisa da empresa e valorizar o local de trabalho, aumentando a motivação e a auto-estima da equipe, melhorando o seu rendimento”. Rendimento! Claro, o que importa é a imagem da empresa somada ao rendimento da empresa, sempre o que importa são os números.
Agora, eu não consigo entender como os uniformes motivam a auto-estima da equipe. Eu não me sentiria motivada em trabalhar em uma empresa em que todos se vestem iguais, e são iguais, como robôs. É claro que em certas profissões o uso de uniformes é necessário para sinalizar a sua função, como no caso de bombeiros e de policiais. Mas expandir o uso de uniformes para todos os âmbitos da linha de produção e acreditar em slogans como “Muito mais do que uniformes: uma opção para quem gosta do que faz”. Aí já é sacanagem! Desde quando usar o uniforme da empresa é uma opção? É na verdade uma imposição.
Os códigos de vestuário constituem um meio sutil de recordar aos trabalhadores a necessidade de se conformar às normas e aos valores das culturas organizacionais. Ou seja, esses códigos de vestuário são normas implícitas, que rapidamente são assimiladas pela sociedade. Baseia-se na idéia de que estar bem-vestido é uma indicação de respeitabilidade, de status.
Assim, moda e sociedade andam juntas e discutem política, e nós, reles mortais, mais uma vez somos marionetes de um jogo social muito maior.


Escrito em 04/05/2009.

Filosofar é pensar!

Desde que decidi fazer faculdade de filosofia as mais diversas pessoas chegaram até mim e perguntaram: Mas você vai viver do que? Tem campo de trabalho? Vai ser professora? O que se faz com filosofia?
A partir destes questionamentos externos a dúvida brotou até em mim, que estava tão segura do que queria. E comecei, eu mesma, a pensar sobre essa tal de Filosofia. Se realmente valia a pena terminar a graduação. Eis que agora não só terminei a graduação, como já estou terminando um mestrado e sou, enfim, professora, como muitos pensaram que seria o meu “fim”.
Agora com essa oportunidade de escrever a vocês, leitores, eu gostaria de desmistificar, ao menos um pouco, o que é a Filosofia. E para isso nada melhor do que começar com problematizações, com questões.
Portanto, o que é essa tal de Filosofia? Para que serve? O que fazemos com ela? Como usamos/aplicamos a filosofia no nosso dia a dia? Tantas perguntas sem respostas, pois “filosofia” não pode ser e nunca será um produto, um bem de consumo. Não pegamos “filosofia”, não compramos “filosofia” no supermercado, não comemos “filosofia”.
A filosofia é estritamente abstrata. É coisa dos gregos antigos. E para espanto de muitos, filosofia mesmo, só no Ocidente!
O pensamento filosófico surge quando o homem começa a se perguntar o porquê das coisas, da natureza e da vida prática. A partir daí o tal pensamento filosófico vai se estruturando, na medida na qual o homem se pergunta o porquê de sua própria existência, e tenta dar respostas a esse questionamento.
Muitas coisas que achamos serem modernas ou contemporâneas, já haviam sido pensadas pelos gregos antigos, como por exemplo, o átomo.
O nosso modo de agir é a soma da nossa tradição, do nosso passado, da História.
É certo que alguns filósofos influenciaram em maior ou menor intensidade na história, e isso se dá exatamente pela história, é ela que escolherá quem será lembrado no futuro. Mesmo quem pense não estar sendo influenciado pelo pensamento filosófico está errado, já que desde muito tempo atrás tal pensamento emana por toda a história os seus resultados.
O pensar racional, a formulação de questionamentos e reflexões acerca de um determinado assunto pode ser uma construção filosófica. O filósofo, ao contrário do que muito se pensa por ai, não é aquele que tem uma formação acadêmica obrigatoriamente. É filosofo quem consegue articular sobre vários assuntos que são importantes para a sua essência, para a compreensão de sua existência no mundo. Filosofar é, grosso modo, ter um pensamento racional, estruturado sobre os mais diversos assuntos que permeiam a existência em geral. É saber articular. Pensar.
Hoje percebemos que a filosofia está na “moda”, e tudo o que está em evidência corre riscos. O risco que a filosofia está correndo é da sua banalização e da massificação do seu potencial emancipatório, pelos livros de auto-ajuda que lotam as prateleiras das livrarias e tem como promessa sanar a dor dos problemas da vida moderna, do indivíduo dilacerado que não se compreende mais. Resta-nos agora juntar os cacos da História e, a partir do pensamento racional e filosófico, tentar se recompor.


Escrito em 26/04/2009.