Outro dia estava
pensando um pouco como as nossas roupas podem influenciar as nossas vidas, e
cheguei a conclusão de que o nosso vestuário, o jeito como nos vestimos, pode
ser considerado tanto como um instrumento de realce de si mesmo quanto uma forma
de controle social. Porque as roupas da moda, antigamente e ainda hoje, podem
ser usadas para elevar o capital social do indivíduo ou para limitar as suas
funções sociais.
Durante o século XIX as roupas da
moda eram acessíveis principalmente às classes média e alta, hoje em dia, com a
democratização da moda isso se expandiu para todas as classes sociais, a moda
está em todos os lugares, basta ter o chamado estilo e compor o seu look.
É claro que a moda como conceito é
acessível a todos, mas qualitativamente não, sabemos que as roupas feitas em
larga escala não possuem a mesma qualidade de uma peça única, porque há por
trás o interesse “nobre” no lucro. E se usam tecidos de qualidade não sobra
tanta margem para lucro. Marx já falara muito bem sobre isso no livro O Capital.
As tecnologias também desempenham o
seu papel quando o assunto é democratização da moda, já que simplificam a
produção de roupas, tanto em casa como em fábricas. Um exemplo
deste fenômeno tecnológico são as máquinas de costura modernas que começaram a
ser comercializadas (quase sempre financiadas) nos Estados Unidos no final do
século XIX, e as mulheres puderam fazer as suas próprias roupas usando moldes
oferecidos pelas próprias empresas que fabricavam essas máquinas de costura. Esse
foi um fator decisivo e contribuiu para a democratização final das roupas.Todo esse empenho da mulher do século
XIX em se parecer socialmente de uma classe mais elevada demonstra a importância
simbólica do vestuário e como ele pode ser uma ferramenta de realce de si mesmo,
ainda nos dias de hoje.
Outro ponto de destaque é o uso de
uniformes, que desde o século XIX representa um instrumento de controle social,
imposto principalmente aos trabalhadores provenientes da classe operária. Os
uniformes servem como lembretes úteis de que o conteúdo da comunicação interpessoal
nos locais em que são usados deveria limitar-se a informações sobre a tarefa
desempenhada, reforçando a separação entre classes sociais e mesmo entre empregador
e empregado numa mesma casa.
Muitas empresas especializadas em
uniformes utilizam slogans para mistificar o uso de uniformes como sendo algo
enaltecedor, o que não o é. Facilmente podemos encontrar por aí empresas que
dizem: “Usar uniformes significa mais do que
praticidade. É também vestir a camisa da empresa e valorizar o local de
trabalho, aumentando a motivação e a auto-estima da equipe, melhorando o seu
rendimento”. Rendimento! Claro, o que importa é a imagem da empresa somada ao
rendimento da empresa, sempre o que importa são os números.
Agora, eu
não consigo entender como os uniformes motivam a auto-estima da equipe. Eu não
me sentiria motivada em trabalhar em uma empresa em que todos se vestem iguais,
e são iguais, como robôs. É claro que em certas profissões o uso de uniformes é
necessário para sinalizar a sua função, como no caso de bombeiros e de policiais.
Mas expandir o uso de uniformes para todos os âmbitos da linha de produção e
acreditar em slogans como “Muito mais do que uniformes: uma opção para quem
gosta do que faz”. Aí já é sacanagem! Desde quando usar o uniforme da empresa é
uma opção? É na verdade uma imposição.
Os códigos de vestuário constituem
um meio sutil de recordar aos trabalhadores a necessidade de se conformar às
normas e aos valores das culturas organizacionais. Ou seja, esses códigos de
vestuário são normas implícitas, que rapidamente são assimiladas pela
sociedade. Baseia-se na idéia de que estar bem-vestido é uma indicação de
respeitabilidade, de status.
Assim, moda e sociedade andam juntas
e discutem política, e nós, reles mortais, mais uma vez somos marionetes de um
jogo social muito maior.