A questão da morte pode
ser discutida hoje no sentido, também, da morte de si. A morte de si no sentido
da finitude do Seu Ser, do Seu Existir. Coloco em maiúsculas para ressaltar a
individualidade, do SEU, do MEU, porque é assim que nos entendemos e nos vemos
desde o fim da Revolução Francesa, como indivíduos. Somos guiados pela Razão, e
essa Razão é individual e própria da autonomia de cada um.
O mistério da finitude, sempre foi objeto de reflexões
filosóficas. Vida e morte são dualidades que aparecem como figuras primordiais
da constituição de um sujeito histórico cindido. E é justamente através dessa
percepção da finitude que o ser humano é levado a procurar compreender, com
todos os meios possíveis, o sentido de sua existência. Como afirmou o filósofo
pré-socrático Heráclito, só sabemos o que é vida, porque há a morte, os pares de
opostos se completam para completarem a nossa essência, portanto, a morte deve
ser encarada com naturalidade, mas não o fazemos.
Outro ponto de vista sobre a questão da morte pode ser
ilustrado a partir do filme “Bravura Indômita” (True Grit, EUA, 2010), que
narra a história de uma adolescente que procura vingar o assassinato de seu
pai, indo atrás do bandido, contratando um justiceiro. A adolescente é a
própria encarnação da bravura, da coragem destemida, da determinação.
Mas
o ponto que eu achei muito interessante foi a relação com a morte. O filme mostra
como no velho oeste norte-americano a morte era encarada com naturalidade. Era como
um rito natural, coisa que hoje em dia não encaramos mais com tanta
naturalidade, apesar de sabermos que é uma certeza inevitável.
A naturalidade da morte no filme pode ser evidenciada na
passagem em que a garota assiste a uma execução por enforcamento, na qual
muitas pessoas vinham de cidades vizinhas para assistir, como se fosse uma ida
ao cinema, por exemplo. Não havia julgamento moral acerca da condenação era
mais como espetáculo culturalmente aceito.
No livro, “Mortes Vitorianas” de Juliana Schmitt, no capítulo
3, há relatos e fotos do mesmo período do filme, em que a morte do outro chegou
a ser até cultuada em fotos. Como? Crianças, jovens e adultos foram fotografadas
“post mortem”, isso era uma prática muito comum, alimentada pelo apego ao morto
e o desejo de registrar seu último momento de convívio. De alguma maneira, a
foto assegurava que o cadáver está vivo enquanto cadáver; é a imagem viva da
coisa morta. O corpo é eternizado e tornado imortal. Eis o grande sonho do
homem, ser imortal. Ter a ilusão de que este mundo é passagem para um outro
mundo, da eternidade, porque somos arrogantes e não queremos acreditar que a
vida se encerra nesta vida. É mais fácil e consolador acreditar nisto.
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