segunda-feira, 18 de março de 2013

Ida ao teatro: Obscena Senhora D.


              Impresso sobre a peça impecável. Boa fotografia, bom resumo. Boas expectativas sobre a peça. Há alguns anos sou fã, se assim pode se dizer, de Hilda Hilst (escritora de Jaú, conhecida mais no mundo do que no Brasil). Seria uma honra ver uma encenação de “Obscena Senhora D”.
               Munida do meu ingresso de estudante – sim, ainda sou estudante – fui ao SESC na última quinta-feira. Gosto do SESC acho que lá as coisas funcionam, uma amiga me transportou (lembrem-se ainda estou me reabilitando), parou na vaga de deficientes para eu não ter que andar tanto. E não é que as coisas lá funcionam mesmo!
            Chegamos quinze minutos antes do horário. Como não haviam lugares marcados entrei na fila. Entramos no teatro, aconchegante, com o problema de não ser inclinado, ou seja, quem estava na quarta fileira – meu caso – já não enxergava muita coisa. A Obsecena Senhora D. já estava no palco, mas as luzes ainda estavam acesas. Nisso uma senhora, quase obscena, levanta e faz o seu ato. Dizendo que estava incomodada com o barulho, e que a peça já havia começado (para ela poderia ser). No entanto, a peça não havia começado de fato. Mas a Obscena Senhora D. já provocava o público presente. Isto que é o mais legal e interessante do teatro, ele incomoda, provoca, instiga, e o público participa. O ator encena diante do público mesmo, e não diante de um aparato tecnológico, como os atores de cinema e tv.
            Apagaram-se as luzes e a peça começou. Todo um frisson tomou conta daquela sala, as pessoas estavam inquietas e não sabiam qual reação ter diante da atriz que encenava Hillé ou Senhora D. Alguns riam, outros ficavam parados. A minha dúvida é se riam porque achavam engraçado ou por achar que deveriam rir. Logo as indagações metafísicas surreais tomaram o tom: "E o que foi a vida? Uma aventura obscena, de tão lúcida". As pessoas presentes se inquietavam nas poltronas, tentavam entender o monólogo que estava diante dos seus olhos. A atriz provocava, estava impecável como a obscena. No vão da escada de sua casa escura, essa obscena Senhora D. nos contempla através dos buracos dos olhos das máscaras. Para falar "dessa coisa que não existe mas é crua e viva, o Tempo", para cuspir em nosso rosto a pequenez, a perdição humana, para dizer que "ninguém está bem, estamos todos morrendo". Enquanto se dissolvem no aquário peixes pardos recortados em papel. O monólogo aguça ainda mais a imaginação do público, temos que montar mentalmente a narrativa e as cenas. Contudo a peça não fica cansativa e nem vulgar, apesar de obscena. Sons, gritos, urros, rouquidões. Impossível aventurar-se no texto de Hilst sem entrega. Inútil munir-se apenas das armas da razão. Hipnótico, o discurso envolve como águas – às vezes lodosas, às vezes claras – e numa vertigem nos arrasta, de susto em susto, cada vez mais para perto daquilo onde tudo pode acontecer. Traiçoeiras e sensuais, as palavras ofegam e palpitam, como se tivessem carne, sangue, músculos, nervos, ossos. Sempre se pode gostar de porcos. Gostar de gente, também. Espero que depois de terem assistido a essa peça ninguém tenha saído ileso. Como não se sai, afinal, da própria vida.

Terapia para todos!


              Fazer terapia devia ser direito de todos. Sempre pensei que fazer análise devia ser serviço prestado pelo SUS. Terapia é muito caro, uma sessão custa em média cem reais. Quem pode pagar? Apenas pessoas que ganham razoavelmente bem, ou seja, os mais favorecidos na esfera social. Contudo, há alguns lugares, como universidades, que oferecem esse serviço a preços mais acessíveis (geralmente com estudantes de psicologia).
            Outra coisa. Infelizmente em nosso país muitas pessoas (o senso-comum) têm preconceitos enraizados – desde não sei quando – que mistificam a prática de ser analisado. A maioria acredita que quem procura ajuda psíquica ou é louco ou não tem capacidade de resolver os próprios problemas. Mas não é nada disso.
                     É muito interessante você marcar um horário, posicionar as suas idéias, falar e, principalmente, se escutar. O exercício de escutar a si mesmo é o lance mais importante. Quando paramos e nos escutamos podemos refletir a atitude que tomamos frente a um determinado problema ou situação. Quem nunca fez terapia fica imaginando e geralmente não entende quem faz.
              Um alerta importante: se você quiser fazer terapia, procure se informar e pesquisar se o profissional escolhido é capacitado, e se estudou todas as vertentes do comportamento humano. Temos que tomar cuidado para não cair em armadilhas, ou em golpes de pessoas oportunistas.
              Aqui no Brasil temos, em linhas gerais, a Psicoterapia Comportamental; a Breve (foca no problema atual); a Psicoterapia Corporal (trabalho com o corpo); a Psicanalística (Freud e seus seguidores) e a Psicoterapia Junguiana (baseada em Jung, dissidente de Freud).
                                                                *  *  *
            Neste mundo moderno, no qual a velocidade e as relações inter-pessoais são fragmentadas e interesseiras, a terapia se torna imprescindível. O problema desta velocidade do mundo moderno em relação à terapia é justamente o seu “tempo de tratamento”. Muitos acham um absurdo fazer terapia por anos e anos, é mais fácil tomar um comprimido com ação imediata, dormir e esquecer as suas angustias, ao invés entender o porquê, o motivo que gera a angustia ou o trauma.
            Temos temores e inquietações que muitas vezes não sabemos nem de onde surgem. A solidão nos assola mesmo quando estamos no meio da multidão.
            A modernidade traz esse sentimento de pequenez diante da grandeza do mundo. Não nos entendemos e nem entendemos o outro. Georg Lukács em seu livro, A teoria do Romance (1916) – mesmo sendo considerado teoria literária – analisa o homem dentro do contexto das suas produções literárias; da epopéia ao romance.
            Lukács fala-nos de um tempo em que não havia necessidade de filosofia, porque todas as explicações eram encontradas nos mitos. Esse era um tempo sem dúvidas, portanto, sem necessidade de respostas. O mundo era um universo fechado. Já o mundo atual ganhou em abrangência e incoerências, e o homem conheceu a solidão. É a ruptura entre o sujeito e seu mundo, o momento em que a totalidade deve ser buscada, em meio a um ambiente fragmentado.
            Cito esse ensaio de Lukács por achar pertinente a discussão, e integrar o lado positivo do tratamento psicológico nos dias de hoje. Porque muitas destas neuroses, ansiedades e angustias que muitos médicos tratam com anti-depressivos (tarja preta) podem ser resolvidas na terapia. Na França é assim, o serviço público de saúde trata muitas patologias com a terapia. Estudos de lá comprovam a eficácia do tratamento. Fora que reduz custos com medicamentos. O Estado adora redução de custos e de leitos em hospitais, poderia aderir a terapia para todos!

Experiência empírica


          Estava pensando no decorrer destes dias no que escrever. O que seria interessante e ao mesmo tempo enriquecedor? De sexta para cá estive zanzando por ai e acabei encontrando o meu tema.
            Como eu já disse em um texto anterior, “estou meio paradinha”, por causa de uma cirurgia no joelho que eu me submeti há quase 30 dias. Desta forma, sou uma “deficiente” temporária (já posso circular por aí com a minha muletinha).
              Mas aonde eu quero chegar contando a vocês sobre a minha vida pessoal? Chegarei lá.
            Na última sexta-feira, fui com a nossa colunista Camila à casa noturna Santa Madalena prestigiar a banda bauruense Move Over. Achei que seria moleza. Logo na entrada fui surpreendida com o primeiro obstáculo: uma escada!
            Subi com a ajuda da minha fiel muleta e com a paciência da Camila.
            O segundo obstáculo era cruzar o bar rumo ao camarim da banda.
            Na minha cabeça as pessoas iriam ver que eu estava de muleta e abririam caminho. Tolice. Tinha que parar e cutucar as pessoas para poder abrir caminho.
            No fim da noite fomos pagar os cartões de consumo, e uma garota pediu para passar na minha frente, eu deixei, a Camila ficou indignada com a falta de bom senso da menina.
            No dia seguinte fiquei pensando sobre a minha aventura. E cheguei à triste conclusão de que um cadeirante, logo de cara, já não poderia assistir ao show da Move Over. A casa noturna, como muitas outras – para não falar todas – não tem acesso para deficientes. Uma pessoa que é impossibilitada de subir escadas teria que ser carregada para ter acesso ao palco. Na minha opinião, seria um tipo de humilhação depender de alguém para entrar em uma balada. Seria muito mais justo e humano ter acesso facilitado.
            Conversando com um amigo advogado, ele afirmou que casas noturnas, bares, enfim, lugares que as pessoas freqüentam, só terão obrigatoriedade por lei em facilitar o acesso em 2013. Até lá as pessoas portadoras de necessidades especiais ficam sem ir à esses lugares?
            No domingo tive outra experiência, que seria normal e corriqueira: fui ao supermercado. Como ainda não posso dirigir fui com a minha mãe. Falei para ela parar na vaga de deficientes. Justo, já que tenho certa dificuldade em caminhar. O supermercado Confiança Max possui duas vagas para deficientes ao lado do quiosque do MacDonald’s, o que leva a maioria das pessoas pensarem que são vagas que ninguém usa, e não há mal nenhum em estacionar ali. No lado oposto do estacionamento há vagas para idosos, e eu vi muitos não-idosos estacionados ali.
            Essas atitudes me levam a crer que as pessoas não têm bom-senso. O bom-senso nos dias de hoje é uma postura tão cara, que se configura como uma Virtude.
            Enfim, entrei no mercado e fiz a compra. Só que no decorrer me deu vontade de ir ao banheiro (coisa mais normal do mundo): outro transtorno.
            Estava perto das bebidas e entrei no banheiro mais próximo, e era para deficientes. Claro que estava trancado à chave (nada pode ser fácil nesta vida). Pedi ao funcionário a chave, que mais parecia um bem precioso guardado em cofre. Cinco minutos depois ele aparece (contei no relógio). Numa dessas se estivesse muito apertada...
            Achei que a missão “banheiro” já estava concluída quando olhei para o vaso sanitário e estava totalmente sujo (eu sei que não é legal falar sobre isso). Usem a criatividade e imaginem o “sujo”. A missão foi abortada por motivos óbvios.
            Muitos podem pensar: O que essa menina quer saindo por ai? Por que não fica em casa? Ela está doente, não pode sair. Mas a verdade é que não estou doente, estou me recuperando, e parte da minha reabilitação é ter uma vida normal. O problema é que a configuração da mentalidade da nossa sociedade dificulta ainda mais o que já é difícil.
            Vamos tentar ser menos egoístas, porque não sabemos o que nos aguarda no futuro.

Preguiça das relações


                Hoje em dia temos – nitidamente – preguiça em nos relacionarmos com as pessoas. É muito mais fácil ficarmos reclusos no mesmo “grupinho” e não nos aventurarmos em novas relações pessoais (reais).
            Um dos fatores que elevam o índice das pessoas não se interessarem mais no conhecer, no relacionar-se é a Internet. Mas aí você pode dizer: Mas com a Internet podemos conhecer pessoas, mandar e-mails, bater-papo. Sim, podemos fazer tudo isso e muito mais. Contudo as relações são superficiais.
               Não há o contato, a troca de olhares ou a cumplicidade de uma relação mutua entre as pessoas. Esse contato verdadeiro, não virtual, está cada vez mais escasso, as pessoas se limitam, e essa limitação é confortável. Se não queremos falar com determinada pessoa, ao invés de resolvermos o nosso problema com ela, simplesmente, a bloqueamos ou deletamos.
               A Internet é uma ferramenta, e não uma condição para nos inter-relacionarmos uns com os outros. Ela limita e corrompe. Porque o que fazemos no mundo virtual queremos transpor para a realidade. A realidade, que deve ser tomada como verdade, está sendo subjugada pela virtualidade.
             Outro problema do mundo virtual está ligado à criminalidade. A maioria das pessoas acredita que as leis do mundo real não se aplicam ao mundo virtual. Criam um avatar, um fake, e podem tudo. Estão legalmente protegidos em suas casas diante do aparato tecnológico. É a partir desta mentalidade que casos de pedofilia cresceram tanto. A pedofilia sempre existiu no mundo, esse tipo de perversão é antiguíssimo. Mas com as possibilidades oferecidas pela virtualidade, a pedofilia, aumentou. Em uma reportagem do programa CQC (exibido as segundas, pela Band), na qual simulavam o quarto de uma adolescente de 15 anos, numa sala de bate-papo, vários homens maduros procuravam falar com a menina, e o único assunto era sexo e a exibição do órgão genital para sexo virtual. No mínimo asqueroso.
            A meu ver isso é resultado dessa preguiça das relações, é muito mais fácil sexo virtual do que real, para pessoas sem conteúdo e com esse grau de perversão.
            Os e-mails, por exemplo, são uma ótima ferramenta. Não apenas para nos comunicarmos, mas para divulgarmos eventos também. O perigo é o de se tornar uma forma para não se indispor com as pessoas, como nos bate-papos. Como assim? Ao invéz de solucionarmos uma situação frente-a-frente, mandamos um e-mail. É uma forma rápida de não ignorar o outro e ao mesmo tempo se livrar da situação indesejada. O perigo é se instaurar uma frieza, comparada ao fascismo.
            As pessoas preferem dizer, “melhor não”, do que serem autênticos e sinceros. Acreditam que seja melhor falar por meias verdades do que na totalidade da verdade. Isso demonstra um traço de falta de personalidade. É mais fácil agir desta forma, porque conviver é difícil.
            Viver em sociedade é comprometer-se. Fundamentalmente se comprometer com o outro, porque ninguém, por mais que queira, consegue viver sozinho e isolado completamente.
         Nos dias de hoje esse comprometer-se é substituído de forma “higiênica”, pelos aparatos tecnológicos.  E também, por causa do alto índice de criminalidade nos fechamos ainda mais. Não damos mais as mãos com medo de que nos levem o braço. Contudo, se pensarmos desta forma ficaremos sem nos relacionarmos. Como na letra exemplar de rap, A vida é desafio, dos Racionais Mc’s: “mundo moderno, as pessoas não se falam, ao contrário, se calam, se pisam, se traem, se matam”. Temos que mudar essa realidade, antes que nos tornemos seres não humanos.
            

Qual o valor?


              Há algum tempo estou lendo um livro do Dostoievski, Os Demônios. Digo algum tempo remetendo um longo período, coisa que não é da minha preferência. Gosto de começar e terminar rapidamente as minhas leituras. Contudo, com tantas coisas e “prioridades” o livro não ficou nem em segundo, mas em décimo plano.
             Como algumas pessoas que me cercam já sabem, estou paradinha – literalmente parada – por conta de uma cirurgia. Aí que a leitura volta a ter um destaque.
         Enfim, pela manhã, lendo, encontrei uma passagem muito sugestiva para os nossos dias, que demonstra toda a atualidade e genialidade profética de Dostoievski (um dos maiores romancistas da literatura russa e um dos mais inovadores artistas de todos os tempos). A passagem é a seguinte:
            “Toda a dúvida está apenas em saber: o que é mais belo, Shakespeare ou um par de botas, Rafael ou o petróleo?”
            A frase me deixou, literalmente, de orelha em pé.
            A título de esclarecimento, o livro Os demônios foi escrito através da motivação de um episódio verídico: o assassinato do estudante russo I. I. Ivanov pelo grupo niilista (em linhas gerais é a desvalorização e a morte do sentido, a ausência de finalidade e de resposta ao “porquê”) liderado por S. G. Nietcháiev em 1869. Um ano depois o livro foi concebido, com fins assumidamente panfletários.  
            O autor analisando o crime cometido pelo grupo niilista profetiza o que acontecerá posteriormente no século 20. Ele consegue vislumbrar os cruéis fanatismos de Hitler e Stálin. Desta forma, os demônios do título do livro são traduzidos como a violência, a ignorância, o terrorismo e a impostura ideológica. Estes demônios alegóricos mesmo no nosso século, o 21, continuam vivos sob novos disfarces.
            Mas e a frase que eu escolhi? Por que me deixou de orelha em pé?
            Em minha opinião ela retrata não só o que se passava nas pessoas, ditas práticas, do final do século 19. Mas ainda em nosso tempo muitos pensam: o que é mais importante, uma obra de arte ou um barril de petróleo?
            O belo, o moralmente belo, está há muito tempo em decadência. Muitos – e muitos que eu digo podem se dizer muitos povos – se importam muito mais com as cifras e o poder do capital, do que com a beleza.
            Shakespeare não tem a mesma utilidade – e ser útil é muito importante – de um par de botas. O importante é o valor de uso, de uso literal. Assim muitos podem achar mais importante um par de botas do que ler e entender, efetivamente, Shakespeare.
            Mas por qual motivo deixamos de acreditar no abstrato em nome do útil?
            Passamos a dar mais valor àquilo que é útil, na medida em que o capital se tornou essencial. Quando passamos a nos sentir bem consumindo um produto concreto. Ou seja, um produto que podemos mostrar às outras pessoas. A sociedade capitalista tornou-se exibicionista e arrogante.
            Seguindo essa linha, não podemos mostrar, de fato, o livro de Shakespeare que acabamos de ler. Mas podemos mostrar o carro zero km., financiado em várias parcelas. É isso o que realmente importa, infelizmente, em nossa sociedade. Mesmo se você não tenha dinheiro para pagar todas as parcelas do financiamento, quem se importa? Mas você está figurando pelas ruas com o seu carro zero.
            Na sociedade contemporânea capitalista é assim. Já afirmava Guy Debord no seu livro A sociedade do espetáculo (1967), a mercadoria virou espetáculo. A arte e a beleza não cumprem mais o seu papel conciliador na sociedade.
         Debord explica que o espetáculo é uma forma de sociedade em que a vida real é pobre e fragmentária, e os indivíduos são obrigados a contemplar e a consumir passivamente as imagens e as mercadorias de tudo o que lhes falta em sua existência real. Fica a reflexão: Como mudar algo já estabelecido e consentido por todos?

Os Movimentos Feministas: resistências verbais e não verbais


        Sim, movimentos no plural. Descobri que não existe apenas um movimento feminista. Ao longo da história podemos notar várias manifestações pela igualdade das mulheres, configurando, assim, no plural.
      Na Grécia Antiga a importância das mulheres era equivalente a dos escravos. Porque cidadão mesmo era só do sexo masculino e nascido por lá. Somente estes podiam participar da chamada democracia ateniense e ter a palavra na ágora (praça principal símbolo da democracia direta). Ou seja, para as mulheres nada.
      Já na Roma Antiga elas eram consideradas perigosas. Principalmente quando tentavam reverter a situação vigente. Como no caso do uso dos transportes públicos. Porque os transportes públicos daquela época eram restritos aos homens-cidadãos. Mulher não era cidadã, logo, não podia usar esse serviço. Para todo lugar que a mulher romana queria se locomover tinha que ser a pé. Revoltadas marcaram hora com o Senado. Expuseram a situação. Mas não deu em nada. Continuaram a pé. O Senado Romano achou perigoso demais deixarem as mulheres se locomoverem usando os meios de transportes públicos, pois se abrissem essa exceção logo elas reivindicariam outras melhorias.
      No longo período da Idade Média, ao contrário do que muitos podem pensar, o espaço de atuação política da mulher era maior. Elas atuavam em quase todas as profissões, e algumas freqüentavam universidades. Infelizmente na Renascença houve retrocesso e a caça às bruxas – milhares de mulheres foram queimadas vivas. Quem não se lembra de Joana d`Arc?
      Todas essas primeiras vozes de contestação feminina que a história moderna registra se dirigem justamente contra a desigualdade sexual no acesso à educação e ao trabalho. As mulheres não queriam nada de extraordinário, não queriam tomar o poder de ninguém, apenas queriam e querem ser iguais.
      Uma das formas de resistência e contestação feminina, não verbal, se configura quanto ao vestuário. É curioso notarmos que hoje as nossas roupas derivam, em parte, do estilo adotado pelas mulheres das classes média e operária do século 19, cujo comportamento não correspondia ao ideal feminino vitoriano da época.
      Até no jeito de nos vestirmos tivemos que ir à luta!
      As mulheres do século 19 romperam com o estilo dominante de vestuário – eficiente para manter fronteiras de gênero – quando começaram a trabalhar: as roupas tiveram que ser ágeis para facilitar os movimentos dentro do escritório, por exemplo.
      Esse novo estilo, barato e descomplicado, cruzou as fronteiras de classe. Incorporava peças de roupa masculinas à vestimenta feminina (mas era distinto do cross-dressing), representava, consciente ou inconscientemente, uma forma de resistência ao estilo do vestuário dominante.
      Representou uma espécie de inversão simbólica da mensagem dominante do vestuário feminino ao associá-lo ao masculino. Itens ligados à indumentária masculina ganharam novos significados. A tão esperada independência feminina estava a caminho. Contudo, o grau de controle social, na forma de hostilidade e zombaria que elas encontravam nos espaços públicos, tornou preferível uma forma amena de subversão simbólica: paletós e gravatas eram combinados com saias em vez de calças.
      Somente na segunda metade do século 20 que as mulheres puderam usar calças. Graças às feministas lésbicas. As feministas dos anos 60 e 70 opunham-se às roupas da moda. Simone de Beauvoir definia a visão de moda das feministas, e criticava os discursos manipuladores sobre feminilidades latentes nos estilos de vestuário.
      A primeira manifestação de massa do movimento de liberação feminina foi dirigida contra o concurso de Miss América em 1968, mais especificamente contra o estereótipo do corpo feminino como objeto sexual representado pelo concurso.
      De lá para cá estamos em constante luta para a nossa igualdade.
     




Acreditar é preciso


             Acreditar em sonhos, e sonhar, é imprescindível para mantermos a esperança de vivermos buscando sempre a felicidade, porque ela nos mantém vivos. Quando o tempo fecha, não podemos nos abater, temos que ter coragem para seguirmos sempre em frente. Um dos pilares que solidificam as nossas bases para termos coragem é a família, fonte de amor. O amor é a única verdade universal, mantém a fé.
             Estamos a cada dia nos esquecendo dos verdadeiros valores e virtudes dos seres humanos. E, desta forma, nos esquecendo de cultivar nas crianças – na educação – a idéia de pensar no futuro, ou seja, à longo prazo. Desde o nascimento as crianças não sentem nem ódio e nem ganância, a sociedade que acaba moldando esses valores e corrompendo. Já dizia o filosófico: “O homem por natureza é bom, a sociedade que o corrompe”. Se continuarmos nesse ritmo até as crianças serão corrompidas, desde muito pequenas, por esse mundo que só preza o consumo, o material e a aparência.
            Quem tem muito quer ter mais, quem não tem nada quer ter algo. Esse ter, adquirir, possuir, é sempre o capital: o dinheiro. Hoje em dia, mais do que em qualquer outro tempo, em qualquer outra época, o dinheiro tornou-se o regulador moral das pessoas, da índole das pessoas.
              Nessa busca sem valores pela felicidade esses indivíduos se perdem no caminho de suas vidas: “O rico teme perder a fortuna, o desempregado se afunda”. Os fracos se viciam nos entorpecentes, nos jogos e na banalidade. A ambição cega. O caminho da vida acaba sendo totalmente incerto.
             As pessoas não falam mais a língua do amor, só a da ambição e da falsa união. Passam por cima uns dos outros se esquecendo que somos iguais, pares, irmãos. Nesse mundo da velocidade, infelizmente, o que vale é ser como um carro desgovernado, como aquele que não vê nada à sua frente. As pessoas se esbarram e se olham com agressividade, com preconceito, com soberba. Na maioria das cidades é assim, você espera um afeto e só vem preconceito, hostilidade e pressa, muita pressa. No fundo as pessoas, no seu íntimo, sonham com a liberdade, em ficar longe da maldade.   
            Não existe classe social para sonhar com justiça, honradez e felicidade. Quem mora num barraco de um cômodo, com uma janela, também tem os mesmos direitos. (infelizmente não é isso que acontece na realidade). Na real quem mora num barraco é sempre marginalizado. Não adianta se esforçar, será sempre um excluído. O futuro de quem mora num barraco será ser jogador de futebol, lutador de boxe ou laranja do tráfico. Nem o sonho lhe é de direito. E quando sonha não consegue ir muito além de sua realidade: sonha com uma medalha, com uma garota bonita, com o almejado lugar ao sol. Sonha com essas coisas porque não tem estudo, não tem educação.
            Há mais de 500 anos o Brasil nutre esse formato socioeconômico, no qual ricos permanecem ricos e pobres permanecem pobres, e a população média flutua neste universo.
           Contudo, a vida não pode ser encarada como um obstáculo incessante, e sim como uma lição a ser vencida e aprendida a cada dia.
          A criminalidade não pode ser desculpa para as mazelas do nosso país. É claro que com essa realidade é bem mais fácil roubar do que estudar, mas ninguém disse que vencer e ter virtudes é algo fácil. Ser uma pessoa moralmente boa é dever, um dever ser. Uma lei moral a ser seguida, para vivermos em harmonia.
            A vida é aprendizado, temos que ser persistentes para podermos alcançar as metas estabelecidas através dos nossos sonhos.
                

Ilusão mágica



            Mágica do teatro. Pensando bem. Não só do teatro, mas também a do circo, de todas as apresentações que você tem contato com o todo do que está acontecendo. No cinema isso não ocorre. Na sala escura, gelada com a temperatura regulada pelo ar condicionado, o que vemos são reproduções. A mágica se perde quando a reprodução em série se instaura. Desde a xilogravura a arte(sanal) se reproduz. Mas a reprodução ainda não é em série. A imprensa se desenvolve e se multiplica. A fotografia surge. Com isso o pintor não precisa mais ir até o lugar que deseja pintar. Ele manda fotografar. Da fotografia sai o quadro. Ponto para a reprodução fotográfica. O sujeito-artista se enclausura. Ele não precisa mais sair de casa e se relacionar com o mundo para pintar o seu quadro, a sua interpretação da realidade. A verdade do quadro advém de uma (in)verdade, advém de uma representação captada pelo olho de alguém. E se ela é uma representação captada pelo olho de alguém ela já sofreu interferência. Já é interpretação. Portanto, o quadro pintado a partir de uma fotografia, mesmo que encomendada, é uma interpretação da interpretação. A foto se desenvolveu, ganhou movimento. O cinema surge. O século XX é o século do cinema. A arte é democratizada. As massas, à noitinha, no final do expediente vão para as filas dos cinemas. As massas, pela primeira vez, têm participação na arte. Porque agora, reproduzidas em películas são mais acessíveis. Não são como uma grande ópera. Onde somente a elite pode ter acesso. Outra coisa. O cinema, além de entreter também tem função terapêutica. Há quem diga que a função terapêutica se dá como nas vacinas. Mas como funcionam as vacinas? Quando após a aplicação a vacina atinge a corrente sangüínea. Lá o vírus ou a bactéria chamará a atenção das células de defesa. Produzirão um anticorpo contra o invasor. Depois de liquidar o falso inimigo, as células defensoras memorizam seu perfil e ensinam outras integrantes do sistema imunológico a atacá-lo. Se o organismo entrar em contato com o legítimo vírus ou bactéria, já terá todo o esquema armado para reconhecê-lo depressa. Quando corre o risco de se esquecer da estratégia, doses de reforço servem de treinamento. O cinema funciona exatamente da mesma maneira. Quando a noitinha os trabalhadores pegavam os seus bilhetes e rumavam às suas poltronas. Assistiam ao filme. O filme os preparava para viver na modernidade. Com todos os planos de seqüências, montagens, cortes nós nos acostumamos à rapidez da máquina que agora se insere no nosso dia-a-dia. Reza a lenda que em uma pequena cidade européia foram passar um filme. Na película, um trem desgovernado seguia em direção à tela. Como se fosse sair da tela. Num plano diagonal. Os espectadores, aterrorizados, saíram correndo do cinema. Acreditaram que o trem ia literalmente sair da tela. Seria uma tragédia, se não fosse ilusão. Essa ilusão do cinema, como nas vacinas, que nos prepara para a vida moderna. O cinema estimula o nosso inconsciente óptico. Através dele memorizamos os golpes de imagens e dos “absurdos mágicos”, dos efeitos especiais. Evitamos às neuroses. Esse é o valor terapêutico do cinema. Hoje precisamos de cinema 3D para sentir algo a mais na nossa imaginação. Dê preferência os bem trash. Que exploram o grotesco. Como um que eu assisti há alguns meses no cimema,Dia dos namorados sangrento (My bloddy Valentine). Filme que explora apenas a tecnologia 3D, e se esquece de todo o resto. A poesia foi esquecida em nome de uma racionalidade técnica.


Dia dos Namorados ou mais uma data do comércio?



              O psicanalista e teórico crítico, Erich Fromm, já afirmava: “O amor é a única resposta sadia e satisfatória para o problema da existência humana”. Mas qual amor? Amor entre pais e filhos? Entre os familiares? Entre os irmãos de credo? Entre os povos? Ou entre os objetos de amor? No quais esses podem se tornar fetiches, que podem amenizar dores e suprirem carências.
            A desintegração do amor na sociedade ocidental contemporânea tem íntima relação com o enfraquecimento dos vínculos pessoais. Hoje, por exemplo, nos relacionamos muito mais com os aparatos tecnológicos do que com as pessoas. Usamos a tecnologia como mediadora dos nossos relacionamentos.
             Quando relacionamos o amor, com a data Dia dos Namorados, notamos o esquecimento do sentimento único, verdadeiro e transcendental para nos lembrarmos das compras, de não repetir o presente, de ser criativo (?). Propagandas televisivas de lojas locais apelam: “Neste mês dos namorados não dê vexames, dê presentes”. A Tela Quente exibiu a tosca comédia romântica de 2006, “Minha super ex-namorada”. A mídia também explora a sua fatia. A televisão abusa do tema e agradece pela data, porque a falta de criatividade das programações é grande!
              E o sentimento? O verdadeiro laço sentimental é explorado, desenvolvido? A data criada para celebrar as uniões pelo amor só interessa aos donos de lojas que ficam abertas até às 22 horas na quarta, véspera de outra data, o feriado cristão de Corpus Christi (não muito “explorado”). Os funcionários, na sua quase totalidade, trabalham sem comissão adicional, ou seja, ganhando o mesmo que se fizesse expediente normal. Assim, como é de praxe, somente a figura emblemática do patrão é quem realmente lucra.
              No macro universo virtual da Internet notamos portais como o Yahoo! Em destaque: “É o Amor! Yahoo! Lança site de Dia dos Namorados”. Lá podemos encontrar de tudo, desde dicas bacanas de presentes até motéis e restaurantes. O enunciado é dos mais cafonas: “Presente, jantar, troca de olhares, declarações e uma noite de amor para fechar com chave de ouro esta data. Vale a pena gastar um pouquinho mais e ter momentos felizes depois para recordar. Veja algumas sugestões de motéis para esquentar ainda mais o clima”, segue na seqüência a listagem dos motéis por ordem de preço ($$ - $$$- $$$$). Temos ainda que adequar o nosso gosto ao bolso. É a economia.
                  O pior ainda está por vir... Se você não tem namorado, tudo bem. Logo na “primeira página” do site encontramos a “janelinha” Yahoo encontros!, também com um enunciado: “Não tem ninguém para comemorar o Dia dos Namorados? Encontre seu futuro amor aqui!”.
               Como assim? O meu futuro amor pode ser um encalhado que confia o seu próprio destino num site criado às pressas para estar na onda da data comemorativa? É muita pretensão de mercado.
                O mais ridículo é o link: “Jogos para eles e elas”. Esse link dá raiva porque quando clicamos nele, pensamos que são jogos picantes para um momento a dois. Quando abre o link vemos que são jogos comuns do Yahoo!Games. Mais uma vez ponto para o item de site criado às pressas com sensacionalismo para prender a nossa atenção.
            Infelizmente nos preocupamos com esses temas tão menores das nossas vidas. Liberamos muito tempo de nossas vidas com essas coisas, porque caso não fosse assim não teriam tantas matérias sobre esse assunto.
           As pessoas ainda gostam de ler sobre “como apresentar um namorado à família”. A matéria intitulada: “Prazer em conhecer? Conheça alguns macetes para evitar constrangimentos na hora de levar seu affair em casa”. Esse é um exemplo de temas que concernem à moral e aos bons costumes de uma sociedade moralista. Ainda estão em alta.
                 A nós cabe apenas a reflexão de que se o amor seria uma arte?

Teoria Crítica, sociedade e Indústria Cultural


              Nesta semana decidi falar especificamente de Filosofia, em especial, de uma “ramificação filosófica” contemporânea que discute temas relativos às condições de produção e recepção dos bens culturais sob a regência do capitalismo tardio, sobretudo, após a segunda metade dos anos 1930.
                     Esta “ramificação filosófica” – que no Brasil ficou conhecida como Escola de Frankfurt (nome da cidade alemã que abrigava o instituto) – era formulada pelos teóricos críticos que integravam o Instituto de Pesquisas Sociais. Horkheimer (então diretor do Instituto) inovou propondo uma “Filosofia Social”. Adorno que teorizou também sobre música. Herbert Marcuse, conhecido como “o filósofo”. Os “companheiros de viagem”, ou seja, aqueles que participaram de forma incisiva, porém não oficial: Walter Benjamin e Erich Fromm (entre outros).
                 Poderia me remeter a várias ramificações deste pensamento filosófico, aqui ressaltarei o lado estético, ou melhor, a nova guinada estética que ocorre nos anos 1930 e que ainda hoje tem influência na vida intelectual, traduzindo o clima criado pelo nascimento da arte moderna e pela irrupção dos movimentos de vanguarda.
              Contextualizando. Todos esses pensadores abasteceram-se nas mesmas fontes filosóficas: no Idealismo e no Romantismo Alemão, de Kant, Hegel, Fichte e Schopenhauer. Todos naquela época lêem Marx, Nietzsche e Freud. Todos são afetados pelos temas do declínio, da decadência das crises que concernem tanto às ciências, ao conhecimento, aos valores tradicionais e às antigas certezas, quanto às artes e à cultura.
                  Neste mesmo período alguns filósofos dataram o início da decadência numa perversão da razão nascida a partir do século das Luzes, porém, encontram os primeiros sintomas da doença inerentes à racionalidade de Homero. É neste clima que surge o livro emblemático e multidisciplinarmente conhecido: A Dialética do Esclarecimento (1947).
                 Redigido por Adorno e Horkheimer nos EUA (quando estavam exilados por conta do nazismo na Alemanha), constitui-se como uma das obras fundamentais e mais citadas da Teoria Crítica. Nela os autores interrogam-se sobre o devir da arte e da cultura em geral na sociedade moderna.
              Nos Estados Unidos os dois filósofos assistem ao prodigioso desenvolvimento das mídias, do cinema, da imprensa, do disco, da publicidade. A democratização cultural instaura o controle de uma nova forma de racionalidade, a da economia.

               É neste livro que os autores forjam a famosa expressão de “Indústria Cultural”, para designar o aparecimento de uma cultura estandardizada, condicionada e comercializada segundo os modelos de bens de consumo. Caracteriza-se pela distribuição dos bens culturais, no qual o conceito de Cultura é rebaixado e é consolidada a cultura de massa.
               Assim, o cinema e o rádio não passam de negócios, não são arte. Adorno e Horkheimer afirmam que “os automóveis, as bombas e o cinema mantém coeso o todo”. Portanto, a lógica da indústria cultural é tão necessária quanto a lógica econômica e bélica.
                   A Indústria Cultural, ainda nos dias de hoje, demonstra claramente que permanecemos neste nível cultural, massificado e industrialmente distribuído pelos estúdios de cinema, pelas emissoras de televisão, pelo rádio – e agora pela internet.
              Após 62 anos da publicação deste texto a nossa sociedade continua atrelada moralmente à indústria do entretenimento. Nada escapa a essa indústria. Dos vídeos do You Tube aos filmes cults iranianos. De Hollywood à Bollywood.
            O que nos resta é fazer crítica séria e tentar uma emancipação. A crítica deve ser imanente, feita dentro da própria estrutura capitalista, para sairmos dessa planificada cultura.

Direito de rever o voto


              O ilustre deputado, fidalgo e bem criado, Fernando Ribas Carli Filho (PSB), não se atentou para as boas maneiras do trânsito. Acabou no último dia 7 de Maio, ceifando vidas inocentes – Carlos Murilo de Almeida, de 20 anos, e Gilmar Yared Filho, de 26 anos. Agora é esperado, ao menos, que seu partido político mostre para a sociedade que o parlamentar não é digno da legenda, expulsando-o do partido. Com a assembléia cassando seu mandato, indo a júri popular. Sendo condenado e preso, bem como a justiça cível condenando-o por danos materiais e morais. Mas a realidade nem sempre é tão justa, estamos caminhando.
            Vamos voltar um pouco.
        De início, a família e os amigos tentaram abafar a gravidade do acidente e suas circunstâncias. Chegaram a ponto de se valerem das relações políticas que mantém. O caso ficou restrito a um mero acidente com duas mortes, estando o motorista causador entre a vida e a morte.
            A pressão veio por toda parte, fundamentalmente, das partes dos familiares dos dois cidadãos de bem. Cansados de impunidade utilizaram a internet para mobilizar os seus iguais.
            A internet se tornou uma importante ferramenta na participação ativa da política, e desta forma, da justiça. Neste caso foi usada para difundir a realidade.
            Desde que o fato foi noticiado, uma saraivada de e-mails foi disparada, inclusive para a mídia nacional. O bloqueio foi furado (mas ainda há resistência).
            Começaram a surgir elementos essenciais do caso, tais como: a habilitação cassada do parlamentar, 130 pontos na carteira, suas 30 multas dos últimos 6 anos, 23 multas por excesso de velocidade, as quatro garrafas de vinho no restaurante antes de pegar o carro e coisas do gênero.
            Eu mesma recebi um e-mail no dia 17. Tal e-mail, intitulado “Homenagem à Gilmar Yared Filho”, tem como propósito arrecadar pelo menos mil assinaturas digitais para serem enviadas à Assembléia Legislativa do Paraná.
            É lá que estão providenciando os procedimentos legais que serão adotados para analisar o pedido de cassação do mandato do deputado. O documento cobrando a perda de mandato por quebra de decoro parlamentar, já foi protocolado na Assembléia pelo advogado da família de Gilmar Yared Filho.
            Pesquisei na internet sobre essa notícia. Encontrei a carta de Gilmar Yared, pai de uma das vítimas. Ele critica a TV paranaense, por ter editado o material gravado, beneficiando o deputado, amenizando os fatos. Indignado, afirma que o Poder Público está à disposição do deputado. E ainda, que no hospital, enfermeiros comentaram “que foi encontrado cocaína em seu sangue e tudo sendo escondido pelas autoridades, médicos e imprensa”.
            Ainda na carta, Gilmar, relata coisas ainda mais obscuras neste caso, que despercebido pode parecer com mais um acidente de transito. O seu irmão, apresentador da TV Educativa, foi afastado de seu programa. Prossegue, na CBN colegas jornalistas estão indignados com o cerceamento de informações”.  
            É assustador imaginar perder um filho, e ainda por cima, ter a sua vida de seus familiares modificadas para sempre.
            Para que esse Estado de terror não seja imposto, para que o povo mantenha os seus direitos, é importante todos se juntarem a essa campanha e encaminharem e-mails para os seus contatos. É só acrescentar nomes e enviar, quando chegarem a mil nomes, para o corregedor-geral da Assembléia Legislativa, Deputado Luiz Accorsi  (PSDB), para o Ministério da Justiça e para o Presidente da República.
            O importante agora é provar que as mesmas pessoas que elegem um deputado, também têm consciência para saber o que é melhor para a sociedade.

Absurdos Inesperados


                   Estava pensando sobre o que escrever nesta semana, e eis que na quarta-feira à noite eu recebo um panfleto de um grupo de alunas da USC, elas apresentavam um seminário sobre ética do embrião. Resumindo, esse panfleto era do Hemonúcleo do Hospital de Base de Bauru, em parceria com a IESB, sobre como se tornar um doador de sangue. Tudo normal. Tudo nos padrões.
                    Comecei a ler e notei algo estranho, na verdade, bem estranho. Havia um tópico que dizia: “não ter hábitos homossexuais e bissexuais”. Grifei. E esperei. Fui para casa e, inconformada, fui pesquisar no “grande oráculo” moderno, o Google. Descobri que essa mesma frase maldosa, criminosa e preconceituosa está em vários sites, matérias de jornais e informativos de todo o país. Do Acre ao Rio Grande do Sul.
                  Me pergunto: quando este informativo foi escrito? Quem o fez? Será que ninguém se atentou para o fato de que esta frase enraíza o preconceito? Em vez de esclarecer, esse tipo de material – que segue a linha: “O que você deve saber antes de doar sangue” – serve para mitificar ainda mais a sociedade. Simplesmente porque essa informação não expressa a verdade. Ela é falsa.
            Analisando. Como um governo democrático não tomou conhecimento da circulação desta informação?Acho que por falta de atenção. Não há diferença biológica entre gays, lésbicas ou simpatizantes. Heterossexuais não têm sangue “melhor”. Sangue é sangue. Na hora que você está em um leito de hospital, precisando receber sangue, certamente não perguntará se aquele sangue é de algum gay.
                Só para constar, não existem mais os “grupos de risco”. Hoje em dia, todos  nós estamos em risco. Na porcentagem, mulheres casadas com mais de cinqüenta anos estão entre os novos portadores do vírus do HIV.  
                 Ainda analisando. Como assim ter “hábitos” homossexuais e bissexuais? Então podemos concluir que ser gay é um hábito? Nós temos o hábito de dormir tarde, temos o hábito de usar jeans, o hábito de não comer nada pela manhã. Agora, a orientação sexual não pode ser um hábito, tem que ser, no mínimo, uma escolha.
            Concluindo. Frases como essas só servem para emburrecer o povo, isso é mitificar. É pegar um conceito já desmistificado e inserir um novo mito. Uma informação falsa como essa faz o mito do preconceito ganhar forças, e se instaura para sempre em nossa sociedade. Ele apenas se mutaciona. O preconceito pode vir, historicamente, de forma escancarada, como aconteceu na Alemanha nazista. A higienização de raças inferiores pelas superiores. Reflito sobre a Alemanha para ressaltar que não só judeus foram para os campos de concentração, mas também, ciganos e homossexuais (entre outros).
            Essa foi a pior parte do informativo, a mais repulsiva e mentirosa. Mas não parava por ai. Nos tópicos seguiam: “Não ter hábitos promíscuos” e “não ser usuário de drogas”. Moralmente e legalmente condenáveis. Contudo, hábitos promíscuos remetem a “mocinha (o) que sai com todo mundo”. Ok. O que deveria ser explícito, no entanto, era a importância do uso de preservativo em TODAS as relações sexuais. Não importa se você transa com um homem e você é um homem. Não importa se é uma garota que gosta de transar com um monte de homens. O que importa é se nessas transas você está usando preservativo.
            O mesmo com acontece com o tópico “não ser usuário de drogas”. É obvio que o uso de drogas não é algo bom, e nem legalmente permitido. Mas seguindo a linha de desmistificação, seria importante ressaltar neste tópico: “não compartilhar seringas”. Porque o objetivo do informativo é pré-selecionar o sangue coletado. Pensando assim, não só usuários de drogas que compartilham seringas terão o sangue descartado, mas também, aqueles pit-boys que compartilham seringas ao auto-injetar substâncias anabolizantes. O esclarecimento tem que prevalecer em uma sociedade democrática. Toda a forma de preconceito é repulsiva, não podemos permitir a propagação deste material impunemente, pois no governo do povo, o povo deve agir.

quarta-feira, 13 de março de 2013

A culpa é de quem?



São Paulo, 28 de Maio. 

Saí de Bauru no sábado, rumo à capital, queria ver “gente diferente”, ou se preferirem gente diferenciada. Queria me desligar do trabalho e passear. No domingo iria num show bacana, em um festival da Cultura Inglesa. No entanto, as coisas não foram bem assim. Na madrugada de sábado para domingo fui a um show em Paraisópolis (para quem não sabe Paraisópolis é uma comunidade, uma favela, um bairro de São Paulo, para cada interpretação pode ser uma coisa, para mim: um bairro).
Não vi crise nem drama em ir até lá,  ainda mais que era a inauguração de um bar de um pessoal que conheci num festival de curtas, cuja premiação foi no CEU (Centro de Educação Unificado), no mesmo bairro.
Chegamos, eu, amigos, e o pessoal da banda (convidada para prestigiar o lugar e levar uma boa música para o bairro).
O show começou, e nada fora do normal estava acontecendo. Naquele momento, para mim, a única coisa incômoda era o fato de não ter cadeiras nem mesas, era realmente o primeiro dia de funcionamento do lugar. O nome? Não sei, nem tinha ainda. Só sei que ao lado tinha um bar com “funk carioca” rolando e muitas luzes.
Faltando cinco músicas para terminar a apresentação a PM chegou. Cinco viaturas. Armas em punho. O show pára. Conversa vai, conversa vem, e não se chega a uma conclusão. Fica um clima estranho. Tudo indica que a banda vai poder finalizar o show. As músicas são apresentadas. E, quando tudo parecia que estava bem, quando os dois rappers do bairro iriam tocar as suas duas músicas ensaiadas com a banda... A polícia invade o bar, e imediatamente a minha garganta fecha. Olho ao redor e ninguém sabe o que está acontecendo, e instintivamente sinalizo para respirar só pelo nariz. E foi assim que a PM acabou com a minha noite.
Em vão duas garotas vão tentar entender – conversando com o policial – o que houve. E ele diz que não teve escolha, que o som estava muito alto. Volte ao final do quinto parágrafo deste texto, e leia que ao lado havia um bar, “Devassa”, que estava rolando um funk super alto, lá a polícia não pediu para abaixar o som, e nem invadiu com spray de pimenta.
Esse é o nosso país, onde a polícia invade os lugares, entra, exclui e não dá acesso à cultura. A música que estava tocando era realmente música tocada com o coração, por músicos que estavam lá dispostos a fazerem o melhor. No entanto, a total falta de sensibilidade destes policiais me chocou.
Termino o texto de hoje num desabafo, para que possamos olhar melhor para as autoridades do nosso país. Certas autoridades não sabem o que é ética, valores, bom senso. Fico realmente me perguntando se não estava no Tropa de Elite 2, e aquilo não era uma cena de abuso de milicianos. Por que tanta violência gratuita? Tenho esperança de que um dia esse tipo de policial seja combatido, e a sombra da ditadura seja eliminada de nossa sociedade, para que possamos, realmente, viver numa democracia, onde todos podem se expressar livremente.

Fiquei uma semana sem celular




            Fui furtada, ou pode até ser que perdi o celular, no último dia 10, uma sexta-feira. Enfurecida, resolvi ficar uma semana sem celular. Foi aí que coloquei em prática a minha experiência empírica: ficar uma semana sem celular.
            O primeiro dia foi extremamente estranho, parecia que uma parte de mim tinha sido amputada. Parece ridículo, mas é verdade, porque somos completamente dependentes deste aparelho tecnológico, que liberta, mas também aprisiona, que facilita e escraviza.
            Há quem diga que o celular é uma extensão do corpo humano, que pode nos confortar e “ser companheiro”. Para Lúcia Santaella, quando queremos compreender as funções exercidas pelos dispositivos móveis precisamos ter uma visão ampla e histórica que compreenda a evolução dos meios de comunicação e da sociedade. "No Japão, por exemplo, o celular na verdade é a chave da casa, cartão de crédito, telefone, conexão com a internet.[...] Pra se ter uma ideia, a produção de narrativas no Japão, foi para o celular." Por isso mesmo, ela ainda defende que os celulares são verdadeiras "máquinas de produzir linguagem".
Hoje estamos inseridos dentro do que chamamos cultura da mobilidade, onde todos os que estão inseridos nos centros urbanos vivem e realizam suas ações sempre em mobilidade. "Mesmo parados, estamos em movimento, pois temos aparelhos que nos permitem estar aqui e lá ao mesmo tempo. Eles nos dão esse dom da ubiqüidade", comenta Santaella. 
            Mas o que eu quero ressaltar é que para mim não foi difícil, só foi “estranho”. E que agora, passados 10 dias, eu já havia me habituado a ficar sem ele, no entanto, noto que as pessoas ao meu redor é que não se habituaram e ficaram me pressionando para que eu comprasse logo um novo aparelho. Amigos, contatos e paqueras ficaram me perguntando quando eu iria comprar outro celular. Noto que preocupação é muito maior da parte deles, porque eu ia seguindo o meu caminho mais livre.
            No entanto, como vivemos em sociedade, em uma cultura do movimento, da mobilidade, da acessibilidade, tive que me render, e ontem comprei um celular novo, de penúltima linha, com todas as vantagens que este pequeno aparelho de fetiche pode nos oferecer.
            É bom destacar que foi “fácil” ficar sem celular, mas nem me imagino ficando totalmente sem internet, e sem o número dos celulares das outras pessoas.
            O próximo passo para a minha experiência empírica seria ficar sem internet. Mas só de pensar nesta hipótese já me dá calafrios. Não conseguiria, mesmo tendo convicção de que o homem se adapta a qualquer situação.

O consumo importa mesmo em tempo de peste



Estava lendo o livro, “A peste”, do escritor argelino Albert Camus e pensei em toda a questão existencial que circunda a temática abordada pelo autor. Elementos de sua terra natal como o sol, a guerra, a fome e a miséria são recorrentes em seus livros. Especificamente neste é trabalhado o tema da miséria e do cerceamento da liberdade de ir e vir dos habitantes de Oran, uma pequena cidade assolada pela peste.
O autor tem um enfoque alegórico que procura problematizar a miséria do ser humano em todos os prismas possíveis. Aqui, a alegoria da peste pode ser comparada à ocupação dos nazistas ou das ditaduras, mas também permite a reflexão, por exemplo, sobre como a iminência da morte relembra ao homem sua finitude e o faz agarrar com todas as forças a vida, que teme perder a qualquer momento.
A dor, o medo e a solidão gerados pela doença podem resgatar sentimentos até então anestesiados pelo cotidiano, como solidariedade, amor e compaixão. Em outros termos, “A Peste”, mostra que a perspectiva da morte modifica a postura do homem perante o mundo e a si próprio, redefinindo valores e crenças e gerando perdas e ganhos, como o resgate da essência das relações humanas.
Ou não.
“Casas incendiadas ou fechadas por motivos sanitários foram saqueadas (...). Encontraram-se, assim, indivíduos furiosos capazes de se precipitarem numa casa ainda em chamas na presença do próprio dono, imbecilizado pela dor. Diante da indiferença do morador, o exemplo dos primeiros foi seguido por muitos espectadores e, nessa rua obscura, à luz do incêndio, viram-se fugir por todos os lados sombras deformadas pelas chamas morimbundas e pelos objetos ou móveis que carregavam nos ombros”.
Notamos neste trecho que a imanência da morte pode não “salvar” as pessoas do individualismo e do desejo de consumo material. Mesmo o homem frente à situação-limite da morte trágica, dolorosa, com sofrimento, que surge repentinamente, impondo um fim gradual e pavoroso – como no caso da morte pela peste.
Os homens, mesmo sabendo que estão fadados a morrerem, só querem saber de “ter”, e não de “ser”. Infelizmente, este é o problema ainda do homem do século 21, que só pensa em consumo e obtenção e acumulo de bens, mesmo que para isso tenha que passar por cima de outros homens, ou de cometerem crimes.