Impresso sobre a peça impecável.
Boa fotografia, bom resumo. Boas expectativas sobre a peça. Há alguns anos sou
fã, se assim pode se dizer, de Hilda Hilst (escritora de Jaú, conhecida mais no
mundo do que no Brasil). Seria uma honra ver uma encenação de “Obscena Senhora
D”.
Munida
do meu ingresso de estudante – sim, ainda sou estudante – fui ao SESC na última
quinta-feira. Gosto do SESC acho que lá as coisas funcionam, uma amiga me
transportou (lembrem-se ainda estou me reabilitando), parou na vaga de
deficientes para eu não ter que andar tanto. E não é que as coisas lá funcionam
mesmo!
Chegamos
quinze minutos antes do horário. Como não haviam lugares marcados entrei na
fila. Entramos no teatro, aconchegante, com o problema de não ser inclinado, ou
seja, quem estava na quarta fileira – meu caso – já não enxergava muita coisa.
A Obsecena Senhora D. já estava no palco, mas as luzes ainda estavam acesas.
Nisso uma senhora, quase obscena, levanta e faz o seu ato. Dizendo que estava
incomodada com o barulho, e que a peça já havia começado (para ela poderia
ser). No entanto, a peça não havia começado de fato. Mas a Obscena Senhora D.
já provocava o público presente. Isto que é o mais legal e interessante do
teatro, ele incomoda, provoca, instiga, e o público participa. O ator encena
diante do público mesmo, e não diante de um aparato tecnológico, como os atores
de cinema e tv.
Apagaram-se
as luzes e a peça começou. Todo um frisson tomou conta daquela sala, as pessoas
estavam inquietas e não sabiam qual reação ter diante da atriz que encenava
Hillé ou Senhora D. Alguns riam, outros ficavam parados. A minha dúvida é se
riam porque achavam engraçado ou por achar que deveriam rir. Logo as indagações
metafísicas surreais tomaram o tom: "E o que foi a vida? Uma aventura
obscena, de tão lúcida". As pessoas presentes se inquietavam nas
poltronas, tentavam entender o monólogo que estava diante dos seus olhos. A
atriz provocava, estava impecável como a obscena. No vão da escada de sua casa
escura, essa obscena Senhora D. nos contempla através dos buracos dos olhos das
máscaras. Para
falar "dessa coisa que não existe mas é crua e viva, o Tempo", para
cuspir em nosso rosto a pequenez, a perdição humana, para dizer que
"ninguém está bem, estamos todos morrendo". Enquanto se dissolvem no
aquário peixes pardos recortados em
papel. O monólogo aguça ainda mais a imaginação do público,
temos que montar mentalmente a narrativa e as cenas. Contudo a peça não fica
cansativa e nem vulgar, apesar de obscena. Sons, gritos, urros, rouquidões. Impossível
aventurar-se no texto de Hilst sem entrega. Inútil munir-se apenas das armas da
razão. Hipnótico, o discurso envolve como águas – às vezes lodosas, às vezes
claras – e numa vertigem nos arrasta, de susto em susto, cada vez mais para perto
daquilo onde tudo pode acontecer.
Traiçoeiras e sensuais, as palavras ofegam e palpitam, como se tivessem
carne, sangue, músculos, nervos, ossos. Sempre se pode gostar de porcos. Gostar
de gente, também. Espero
que depois de terem assistido a essa peça ninguém tenha saído ileso. Como não
se sai, afinal, da própria vida.
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