Mágica
do teatro. Pensando bem. Não só do teatro, mas também a do circo, de todas as
apresentações que você tem contato com o todo do que está acontecendo. No
cinema isso não ocorre. Na sala escura, gelada com a temperatura regulada pelo
ar condicionado, o que vemos são reproduções. A mágica se perde quando a
reprodução em série se instaura. Desde a xilogravura a arte(sanal) se reproduz.
Mas a reprodução ainda não é em
série. A imprensa se desenvolve e se multiplica. A fotografia
surge. Com isso o pintor não precisa mais ir até o lugar que deseja pintar. Ele
manda fotografar. Da fotografia sai o quadro. Ponto para a reprodução
fotográfica. O sujeito-artista se enclausura. Ele não precisa mais sair de casa
e se relacionar com o mundo para pintar o seu quadro, a sua interpretação da
realidade. A verdade do quadro advém de uma (in)verdade, advém de uma
representação captada pelo olho de alguém. E se ela é uma representação captada
pelo olho de alguém ela já sofreu interferência. Já é interpretação. Portanto,
o quadro pintado a partir de uma fotografia, mesmo que encomendada, é uma
interpretação da interpretação. A foto se desenvolveu, ganhou movimento. O
cinema surge. O século XX é o século do cinema. A arte é democratizada. As
massas, à noitinha, no final do expediente vão para as filas dos cinemas. As
massas, pela primeira vez, têm participação na arte. Porque agora, reproduzidas
em películas são mais acessíveis. Não são como uma grande ópera. Onde somente a
elite pode ter acesso. Outra coisa. O cinema, além de entreter também tem
função terapêutica. Há quem diga que a função terapêutica se dá como nas
vacinas. Mas como funcionam as vacinas? Quando após a aplicação a vacina atinge
a corrente sangüínea. Lá o vírus ou a bactéria chamará a atenção das células de
defesa. Produzirão um anticorpo contra o invasor. Depois de liquidar o falso
inimigo, as células defensoras memorizam seu perfil e ensinam outras
integrantes do sistema imunológico a atacá-lo. Se o organismo entrar em contato
com o legítimo vírus ou bactéria, já terá todo o esquema armado para
reconhecê-lo depressa. Quando corre o risco de se esquecer da estratégia, doses
de reforço servem de treinamento. O cinema funciona exatamente da mesma maneira.
Quando a noitinha os trabalhadores pegavam os seus bilhetes e rumavam às suas
poltronas. Assistiam ao filme. O filme os preparava para viver na modernidade.
Com todos os planos de seqüências, montagens, cortes nós nos acostumamos à
rapidez da máquina que agora se insere no nosso dia-a-dia. Reza a lenda que em
uma pequena cidade européia foram passar um filme. Na película, um trem
desgovernado seguia em direção à tela. Como se fosse sair da tela. Num plano
diagonal. Os espectadores, aterrorizados, saíram correndo do cinema.
Acreditaram que o trem ia literalmente sair da tela. Seria uma tragédia, se não
fosse ilusão. Essa ilusão do cinema, como nas vacinas, que nos prepara para a
vida moderna. O cinema estimula o nosso inconsciente óptico. Através dele
memorizamos os golpes de imagens e dos “absurdos mágicos”, dos efeitos
especiais. Evitamos às neuroses. Esse é o valor terapêutico do cinema. Hoje
precisamos de cinema 3D para sentir algo a mais na nossa imaginação. Dê
preferência os bem trash. Que
exploram o grotesco. Como um que eu assisti há alguns meses no cimema,Dia dos
namorados sangrento (My bloddy Valentine). Filme que explora apenas a
tecnologia 3D, e se esquece de todo o resto. A poesia foi esquecida em nome de
uma racionalidade técnica.
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