Estava pensando sobre o que
escrever nesta semana, e eis que na quarta-feira à noite eu recebo um panfleto
de um grupo de alunas da USC, elas apresentavam um seminário sobre ética do
embrião. Resumindo, esse panfleto era do Hemonúcleo do Hospital de Base de
Bauru, em parceria com a IESB, sobre como se tornar um doador de sangue. Tudo
normal. Tudo nos padrões.
Comecei
a ler e notei algo estranho, na verdade, bem estranho. Havia um tópico que
dizia: “não ter hábitos homossexuais e bissexuais”. Grifei. E esperei. Fui para
casa e, inconformada, fui pesquisar no “grande oráculo” moderno, o Google.
Descobri que essa mesma frase maldosa, criminosa e preconceituosa está em
vários sites, matérias de jornais e informativos de todo o país. Do Acre ao Rio
Grande do Sul.
Me
pergunto: quando este informativo foi escrito? Quem o fez? Será que ninguém se
atentou para o fato de que esta frase enraíza o preconceito? Em vez de
esclarecer, esse tipo de material – que segue a linha: “O que você deve saber
antes de doar sangue” – serve para mitificar ainda mais a sociedade.
Simplesmente porque essa informação não expressa a verdade. Ela é falsa.
Analisando.
Como um governo democrático não tomou conhecimento da circulação desta
informação?Acho que por falta de atenção. Não há diferença biológica entre
gays, lésbicas ou simpatizantes. Heterossexuais não têm sangue “melhor”. Sangue
é sangue. Na hora que você está em um leito de hospital, precisando receber
sangue, certamente não perguntará se aquele sangue é de algum gay.
Só para constar, não existem mais os “grupos
de risco”. Hoje em dia, todos nós
estamos em risco. Na
porcentagem, mulheres casadas com mais de cinqüenta anos estão entre os novos
portadores do vírus do HIV.
Ainda
analisando. Como assim ter “hábitos” homossexuais e bissexuais? Então podemos
concluir que ser gay é um hábito? Nós temos o hábito de dormir tarde, temos o
hábito de usar jeans, o hábito de não comer nada pela manhã. Agora, a
orientação sexual não pode ser um hábito, tem que ser, no mínimo, uma escolha.
Concluindo.
Frases como essas só servem para emburrecer o povo, isso é mitificar. É pegar
um conceito já desmistificado e inserir um novo mito. Uma informação falsa como
essa faz o mito do preconceito ganhar forças, e se instaura para sempre em
nossa sociedade. Ele apenas se mutaciona. O preconceito pode vir,
historicamente, de forma escancarada, como aconteceu na Alemanha nazista. A
higienização de raças inferiores pelas superiores. Reflito sobre a Alemanha
para ressaltar que não só judeus foram para os campos de concentração, mas
também, ciganos e homossexuais (entre outros).
Essa
foi a pior parte do informativo, a mais repulsiva e mentirosa. Mas não parava
por ai. Nos tópicos seguiam: “Não ter hábitos promíscuos” e “não ser usuário de
drogas”. Moralmente e legalmente condenáveis. Contudo, hábitos promíscuos
remetem a “mocinha (o) que sai com todo mundo”. Ok. O que deveria ser
explícito, no entanto, era a importância do uso de preservativo em TODAS as
relações sexuais. Não importa se você transa com um homem e você é um homem.
Não importa se é uma garota que gosta de transar com um monte de homens. O que
importa é se nessas transas você está usando preservativo.
O
mesmo com acontece com o tópico “não ser usuário de drogas”. É obvio que o uso
de drogas não é algo bom, e nem legalmente permitido. Mas seguindo a linha de
desmistificação, seria importante ressaltar neste tópico: “não compartilhar
seringas”. Porque o objetivo do informativo é pré-selecionar o sangue coletado.
Pensando assim, não só usuários de drogas que compartilham seringas terão o
sangue descartado, mas também, aqueles pit-boys que compartilham seringas ao
auto-injetar substâncias anabolizantes. O esclarecimento tem que prevalecer em
uma sociedade democrática. Toda a forma de preconceito é repulsiva, não podemos
permitir a propagação deste material impunemente, pois no governo do povo, o
povo deve agir.
Nenhum comentário:
Postar um comentário