quarta-feira, 13 de março de 2013

O consumo importa mesmo em tempo de peste



Estava lendo o livro, “A peste”, do escritor argelino Albert Camus e pensei em toda a questão existencial que circunda a temática abordada pelo autor. Elementos de sua terra natal como o sol, a guerra, a fome e a miséria são recorrentes em seus livros. Especificamente neste é trabalhado o tema da miséria e do cerceamento da liberdade de ir e vir dos habitantes de Oran, uma pequena cidade assolada pela peste.
O autor tem um enfoque alegórico que procura problematizar a miséria do ser humano em todos os prismas possíveis. Aqui, a alegoria da peste pode ser comparada à ocupação dos nazistas ou das ditaduras, mas também permite a reflexão, por exemplo, sobre como a iminência da morte relembra ao homem sua finitude e o faz agarrar com todas as forças a vida, que teme perder a qualquer momento.
A dor, o medo e a solidão gerados pela doença podem resgatar sentimentos até então anestesiados pelo cotidiano, como solidariedade, amor e compaixão. Em outros termos, “A Peste”, mostra que a perspectiva da morte modifica a postura do homem perante o mundo e a si próprio, redefinindo valores e crenças e gerando perdas e ganhos, como o resgate da essência das relações humanas.
Ou não.
“Casas incendiadas ou fechadas por motivos sanitários foram saqueadas (...). Encontraram-se, assim, indivíduos furiosos capazes de se precipitarem numa casa ainda em chamas na presença do próprio dono, imbecilizado pela dor. Diante da indiferença do morador, o exemplo dos primeiros foi seguido por muitos espectadores e, nessa rua obscura, à luz do incêndio, viram-se fugir por todos os lados sombras deformadas pelas chamas morimbundas e pelos objetos ou móveis que carregavam nos ombros”.
Notamos neste trecho que a imanência da morte pode não “salvar” as pessoas do individualismo e do desejo de consumo material. Mesmo o homem frente à situação-limite da morte trágica, dolorosa, com sofrimento, que surge repentinamente, impondo um fim gradual e pavoroso – como no caso da morte pela peste.
Os homens, mesmo sabendo que estão fadados a morrerem, só querem saber de “ter”, e não de “ser”. Infelizmente, este é o problema ainda do homem do século 21, que só pensa em consumo e obtenção e acumulo de bens, mesmo que para isso tenha que passar por cima de outros homens, ou de cometerem crimes.

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