Estava
lendo o livro, “A peste”, do escritor argelino Albert Camus e pensei em toda a
questão existencial que circunda a temática abordada pelo autor. Elementos de
sua terra natal como o sol, a guerra, a fome e a miséria são recorrentes em
seus livros. Especificamente neste é trabalhado o tema da miséria e do cerceamento
da liberdade de ir e vir dos habitantes de Oran, uma pequena cidade assolada
pela peste.
O
autor tem um enfoque alegórico que procura problematizar a miséria do ser
humano em todos os prismas possíveis. Aqui, a alegoria da peste pode ser
comparada à ocupação dos nazistas ou das ditaduras, mas também permite a
reflexão, por exemplo, sobre como a iminência da morte relembra ao homem sua
finitude e o faz agarrar com todas as forças a vida, que teme perder a qualquer
momento.
A
dor, o medo e a solidão gerados pela doença podem resgatar sentimentos até
então anestesiados pelo cotidiano, como solidariedade, amor e compaixão. Em
outros termos, “A Peste”, mostra que a perspectiva da morte modifica a postura
do homem perante o mundo e a si próprio, redefinindo valores e crenças e
gerando perdas e ganhos, como o resgate da essência das relações humanas.
Ou
não.
“Casas
incendiadas ou fechadas por motivos sanitários foram saqueadas (...). Encontraram-se,
assim, indivíduos furiosos capazes de se precipitarem numa casa ainda em chamas
na presença do próprio dono, imbecilizado pela dor. Diante da indiferença do
morador, o exemplo dos primeiros foi seguido por muitos espectadores e, nessa
rua obscura, à luz do incêndio, viram-se fugir por todos os lados sombras
deformadas pelas chamas morimbundas e pelos objetos ou móveis que carregavam
nos ombros”.
Notamos
neste trecho que a imanência da morte pode não “salvar” as pessoas do
individualismo e do desejo de consumo material. Mesmo o homem frente à situação-limite
da morte trágica, dolorosa, com sofrimento, que surge repentinamente, impondo
um fim gradual e pavoroso – como no caso da morte pela peste.
Os
homens, mesmo sabendo que estão fadados a morrerem, só querem saber de “ter”, e
não de “ser”. Infelizmente, este é o problema ainda do homem do século 21, que
só pensa em consumo e obtenção e acumulo de bens, mesmo que para isso tenha que
passar por cima de outros homens, ou de cometerem crimes.
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