segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Moda: democratização e controle social


             Outro dia estava pensando um pouco como as nossas roupas podem influenciar as nossas vidas, e cheguei a conclusão de que o nosso vestuário, o jeito como nos vestimos, pode ser considerado tanto como um instrumento de realce de si mesmo quanto uma forma de controle social. Porque as roupas da moda, antigamente e ainda hoje, podem ser usadas para elevar o capital social do indivíduo ou para limitar as suas funções sociais.
            Durante o século XIX as roupas da moda eram acessíveis principalmente às classes média e alta, hoje em dia, com a democratização da moda isso se expandiu para todas as classes sociais, a moda está em todos os lugares, basta ter o chamado estilo e compor o seu look.
            É claro que a moda como conceito é acessível a todos, mas qualitativamente não, sabemos que as roupas feitas em larga escala não possuem a mesma qualidade de uma peça única, porque há por trás o interesse “nobre” no lucro. E se usam tecidos de qualidade não sobra tanta margem para lucro. Marx já falara muito bem sobre isso no livro O Capital.
            As tecnologias também desempenham o seu papel quando o assunto é democratização da moda, já que simplificam a produção de roupas, tanto em casa como em fábricas. Um exemplo deste fenômeno tecnológico são as máquinas de costura modernas que começaram a ser comercializadas (quase sempre financiadas) nos Estados Unidos no final do século XIX, e as mulheres puderam fazer as suas próprias roupas usando moldes oferecidos pelas próprias empresas que fabricavam essas máquinas de costura. Esse foi um fator decisivo e contribuiu para a democratização final das roupas.Todo esse empenho da mulher do século XIX em se parecer socialmente de uma classe mais elevada demonstra a importância simbólica do vestuário e como ele pode ser uma ferramenta de realce de si mesmo, ainda nos dias de hoje.
            Outro ponto de destaque é o uso de uniformes, que desde o século XIX representa um instrumento de controle social, imposto principalmente aos trabalhadores provenientes da classe operária. Os uniformes servem como lembretes úteis de que o conteúdo da comunicação interpessoal nos locais em que são usados deveria limitar-se a informações sobre a tarefa desempenhada, reforçando a separação entre classes sociais e mesmo entre empregador e empregado numa mesma casa.
            Muitas empresas especializadas em uniformes utilizam slogans para mistificar o uso de uniformes como sendo algo enaltecedor, o que não o é. Facilmente podemos encontrar por aí empresas que dizem: “Usar uniformes significa mais do que praticidade. É também vestir a camisa da empresa e valorizar o local de trabalho, aumentando a motivação e a auto-estima da equipe, melhorando o seu rendimento”. Rendimento! Claro, o que importa é a imagem da empresa somada ao rendimento da empresa, sempre o que importa são os números.
            Agora, eu não consigo entender como os uniformes motivam a auto-estima da equipe. Eu não me sentiria motivada em trabalhar em uma empresa em que todos se vestem iguais, e são iguais, como robôs. É claro que em certas profissões o uso de uniformes é necessário para sinalizar a sua função, como no caso de bombeiros e de policiais. Mas expandir o uso de uniformes para todos os âmbitos da linha de produção e acreditar em slogans como “Muito mais do que uniformes: uma opção para quem gosta do que faz”. Aí já é sacanagem! Desde quando usar o uniforme da empresa é uma opção? É na verdade uma imposição.
            Os códigos de vestuário constituem um meio sutil de recordar aos trabalhadores a necessidade de se conformar às normas e aos valores das culturas organizacionais. Ou seja, esses códigos de vestuário são normas implícitas, que rapidamente são assimiladas pela sociedade. Baseia-se na idéia de que estar bem-vestido é uma indicação de respeitabilidade, de status.
            Assim, moda e sociedade andam juntas e discutem política, e nós, reles mortais, mais uma vez somos marionetes de um jogo social muito maior.
            

terça-feira, 13 de novembro de 2012

A questão do tempo



A questão do tempo tem sido um dos maiores problemas filosóficos desde a Antiguidade grega. Problemas como a passagem do tempo, a forma como ele flui, a linearidade do tempo... são antigos e atuais. O homem antigo queria entender a abstração, já o homem contemporâneo quer apreendê-lo, dominá-lo, assim como já dominou a natureza. Hoje a busca é pela rapidez, para termos a ilusão de que está sobrando tempo, mas para que? Para fazermos cada vez mais coisas em um curto espaço de tempo.
Para o filósofo Aristóteles, no livro Física, o tempo não poderia existir, já que nenhuma das suas partes existe: o instante presente, por não ter duração precisa; o passado que já aconteceu; e o futuro que ainda não é. Já para Immanuel Kant, o tempo é uma estrutura da relação do sujeito com ele próprio e com o mundo.
Comumente dividimos o tempo em passado, presente e futuro. No entanto, recentemente pesquisadores brasileiros e britânicos identificaram uma tribo amazônica que não tem noção do conceito abstrato de tempo.
Os Amondawa, não possuem as estruturas linguísticas que relacionam tempo e espaço. Ou seja, não conseguem projetar o futuro. Nós, “civilizados”, projetamos até a nossa vida toda, ou ao menos tentamos.
Segundo os pesquisadores a tribo não tem uma palavra equivalente a “tempo”, nem mesmo para descrever períodos como “mês” ou “ano”. Uma curiosidade é que os membros da tribo assumem diferentes nomes em diferentes estágios da vida, à medida que assumem novos status dentro de sua comunidade. Ou seja, esta é a forma em que eles percebem que o tempo está passando, mas não que isso implica em “comemorar” anualmente, com números, a passagem do tempo. Diferentemente de nós, que comemorados a passagem de cada ano, que é equivalente ao aumento de nossa idade. Isso é surpreendente e totalmente novo na antropologia!
No entanto, os pesquisadores notaram que quando os Amondawa aprendem o português, eles facilmente incorporam a noção do tempo em sua linguagem. Assim, a falta de noção de temporalidade pode estar vinculada a falta semântica na língua deles. Ou pode ser que se origina da ausência da "tecnologia do tempo", como: calendário e relógios.
O que vale é esta reflexão, pois hoje em dia não paramos para pensar que o tempo é pura abstração, subjetivação, já incorporamos os minutos e os segundos. Seria melhor aprendermos com os Amondawa e voltar a um estado puro, onde o tempo não é tudo!

É tempo de aceitar as diferenças



"Toda pessoa tem o direito de constituir família, independentemente de orientação sexual ou identidade de gênero. Não pode um estado democrático de direito conviver com o estabelecimento entre pessoas e cidadãos com base em sua sexualidade. É inconstitucional excluir essas pessoas", foi com essa frase que o ministro Celso de Mello, do STF, votou a favor da união homoafetiva, há mais ou menos cinco dias atrás.
Este posicionamento do Supremo foi uma vitória, não apenas para aqueles que estão nesta situação de não reconhecimento dos direitos de uma união estável, mas para toda a sociedade brasileira, que reconhece o Estado laico, livre das amarras do falso moralismo e da Igreja. Pois como o próprio ministro afirmou: “A República é laica e, portanto, embora respeite todas as religiões, não se pode confundir questões jurídicas com questões de caráter moral ou religioso”.
O nosso país está caminhando para a evolução intelectual e para a dissolução de antigas amarras que só serviam para nutrir o preconceito e a violência. Aceitar não significa ser partidário, aceitar significa respeitar. O respeito é necessário na vida de todas as pessoas, o respeito está relacionado à dignidade. E hoje, o respeito à diversidade é palavra de ordem.
A palavra diversidade significa no dicionário on line: “tudo aquilo que diferencia de algo ou de outro”. Segundo consulta à enciclopédia livre Wikipédia, diversidade é um conceito amplo, com aplicação em diferentes campos da vida humana, como na Antropologia Cultural: a diversidade de hábitos, costumes, comportamentos, crenças e valores, e a aceitação da diferença no outro (chamada de alteridade). No campo da Política Internacional, da Diplomacia ou da Economia: a manifestação da diversidade por meio do Multiculturalismo. Na Sexologia, a diversidade de manifestações sexuais, ou simplesmente "diversidade sexual". Nos campos da Biologia e do Meio-Ambiente, a diversidade biológica ou biodiversidade. No campo da Lógica, a diversidade de soluções para um mesmo problema, usando ferramentas como a criatividade e a originalidade. Na Psicologia, as idéias de heterogeneidade e de singularidade. No campo do Direito, a diversidade de decisões judiciais sobre um mesmo assunto; e no Direito comparado internacional, a diversidade de legislações sobre um mesmo tema. E no campo da Publicidade e da Propaganda, a difusão do discurso pró-diversidade.
            Portanto, se o mundo é tão diverso, em todos os âmbitos por que não respeitar todas as diferenças e eliminar o preconceito e a ignorância de nossas vidas?

Texto 65

O atual significado do feriado



 “Acordei com as tarefas já batendo à minha cabeça. Passar no banco, comprar bebida, olhar o mapa da festa na Internet... Era Sexta-feira Santa, data em que os cristãos lembram o julgamento, a paixão, a crucificação, a morte e a sepultura de Jesus Cristo, através de diversos ritos religiosos. Um dia de reflexão, jejum e abstinência. Para todos? Só para os cristãos? Para todos os cristãos? Precisava ir ao mercado comprar alguma bebida para o almoço entre amigos, mas era Sexta-feira Santa, pela lógica nada iria estar aberto. Um amigo que me acompanhava disse na certeza: “Onde você está indo? O mercado está fechado, hoje é feriado!”. E falei: “Veremos”. Ao chegar no mercado eu estava certa. O mercado estava aberto: “nem todo mundo é Cristão”, disse meio sem pensar e de forma espontânea, mas depois refleti, e cheguei a conclusão de que uma parcela muito pequena da população é, de fato Cristã, e segue os ritos e dogmas religiosos à risca.”
E foi assim, que passei a minha última Sexta-feira.
Vemos que o motivo da maioria das pessoas celebrarem a data, é pelo puro e simples fato de termos um feriado prolongado, onde podemos descansar, beber um monte, sair e viajar.
O nosso sistema econômico também influencia muito, ou até mesmo é o que determina. A Páscoa significa vender chocolate e coelhinhos de pelúcia. O feriado prolongado significa rede hoteleira aquecida e estradas lotadas.
O capitalismo tem essa característica mesmo de englobar, massificar e coisificar tudo! Perdemos o verdadeiro sentido e significado das coisas em nome do capital, de quanto se pode lucrar.
A palavra Páscoa significa “passagem”, tanto para os Judeus quanto para os Cristãos. No sentido Judaico, a Páscoa (Êxodo 12:18,19; 13:3-10) é a comemoração da saída do povo de Israel da escravidão do Egito. Para os Cristãos (como os católicos e os protestantes) a Páscoa simboliza a morte de Jesus, que morreu em nosso lugar para nossa redenção, bem como a promessa de ressurreição e segunda vinda.
Mas eu fico pensando se há sentido em manter tais comemorações religiosas como feriados nacionais. As pessoas e a econômia utilizam estas datas de forma oportuna, ganham, lucram, faturam... Mas as mensagem e os significados ficam perdidos, assim como o próprio homem está perdido, dilacerado e não se compreende mais. O sentido dos valores estão perdidos, e na relação homem-objeto, o objeto está mais valorizado.

Absurdos Mundiais


           Estava assistindo um filme no Corujão. Estava totalmente despretensiosa quanto à qualidade do filme... Eis que não só o filme era bom, como, também, me despertou o interesse quanto à questão feminina na Ciudad de Juarez, no México. O filme era, “Cidade do Silencio”, com Jennifer Lopez (que ganhou prêmio da anistia internacional pela atuação). Suspeita-se de bloqueios na rede de distribuição. Isso tem sentido, já que eu assisti só na madrugada.
Muitas vezes pensamos, ingenuamente,  que as situações limite, de urgência, são exclusividades do continente Africano ou de países em guerra. Porém, temos que pensar nos lugarejos do mundo, como esta cidade, ou tantos outros “buracos” do mundo esquecidos.
Se “jogarmos” no Google: Ciudad de Juarez, logo veremos que esta é, considerada, a cidade mais perigosa do mundo.
Em um site de turismo aparece:
Se o seu roteiro de viagens inclui uma parada em Ciudad Juarez, no México, talvez seria melhor saber que de acordo com a Citizen’s Council for Public Security, uma associação que se ocupa da defesa de vítimas de delitos, esta seria a cidade mais violenta do mundo, com 191 homicídios a cada 100 mil habitantes”.
A cidade fica ao norte do México, no estado de Chihuahua, fronteira com o Texas. Cerca de 1.300.000 habitantes, cuja economia gira em torno de indústrias montadoras de equipamentos eletrônicos destinados a exportação, onde a maioria de trabalhadores são mulheres. Essas operárias são remuneradas com baixos salários, com eles sustentam suas famílias e tentam fugir da pobreza absoluta enfrentando um regime de trabalho de quase escravidão
E essa população feminina vem sendo cruelmente aniquilada desde 1993. Segundo dados da Anistia Internacional, de 1993 a 2006, 398 mulheres de Juarez foram assassinadas. A maioria dos casos ocorreu quando as mulheres estavam indo ou voltando das fábricas. Segundo informações não oficiais, há cerca de 600 mulheres desaparecidas em Juarez.      
Para nos deixar ainda mais indignados, há o fato de que todos os cadáveres revelam que foram vítimas de violências sexuais, mutiladas e desfiguradas e todas elas foram  estranguladas, sendo que nem todas  puderam ser identificadas. Pior. Ficaram desaparecidas por um dia e até semanas, até que o corpo fosse encontrado e, segundo exames, a maioria das mortes ocorreu dias após o desaparecimento, o que significa que passaram por momentos de tortura, de orgias sexuais e outros padecimentos.
É realmente uma situação lamentável, que não recebe apoio da mídia e nem a atenção devida dos órgãos que poderiam amenizar o problema. Deixando brecha para a impunidade.
E mais triste: diversos depoimentos sigilosos apontam que os policiais do estado de Chihuahua ameaçam a população e têm ligação com traficantes. Sabe-se também que diversos  grandes empresários financiaram matadores de aluguel para raptar mulheres, para que eles pudessem usá-las em orgias sexuais e depois serem  mortas. O governo e a polícia coagem a imprensa que não denuncia esses horrores para o mundo e o povo da cidade, temeroso, cala-se.

O Eterno Retorno dos fatos



E chegamos mais uma vez naquela época do ano que finalmente o BBB chega ao fim. Graças aos deuses! Infelizmente esse programa fictício com personagens reais já “entrou” na programação da vida real das pessoas reais.
            Também chegamos naquela época do ano em que ovo de Páscoa, tá não sei quantos por cento mais caro em relação ao ano anterior. E ainda tá calor pra caramba pra se empanturrar de chocolate.
            O grande desastre natural mundial deste ano já aconteceu. Qual foi? O Tsunami no Japão. Você já reparou como todo ano tem um desastre natural de grande impacto, e todo mundo fala que é o fim do mundo chegando. Ainda mais com o empurrãozinho de Hollywood com o filme “2012”. Aí qualquer desastre é “2012” se aproximando. Segundo filósofos pré-socráticos como Parmênides e Heráclito, o Universo sempre existiu, e sempre vai existir. Aqui no Brasil, no início do ano também tivemos o “nosso”, com as chuvas e os desmoronamentos.
            Todo ano somos bombardeados por notícias e informações seqüenciadas. Que no final do ano serão revistas na “Retrospectiva 2011”.
            A sensação é que a vida não passa, ela é cíclica, com idas e vindas, como se não houvesse mudança, só avanço e retrocesso.
            Já estamos com mais de mil casos de Dengue em nosso município. Todo ano somos atormentados com essa doença, e com o fantasma de que se você está com dor no corpo e febre, é Dengue.
            E o coitado do José de Alencar finalmente foi vencido pela sua debilitada saúde. É talvez apenas com a morte as coisas realmente mudam, e chegam ao fim. Seria a morte a única mudança real? Penso que sim.
            Quem acreditava que o décimo quarto casamento da Gretchen daria certo? Após três meses ela já se separou. Mas aí entram vários fatores como: inserção na mídia, patrocínios e Ego.
            Mais uma vez Nietzsche estava certo: a vida é um eterno retorno.
Parece que o conceito de eterno retorno nietzschiano defende a tese de que pólos se alternam nas vivências numa eterna repetição. Por exemplo: criação e destruição, alegria e tristeza, saúde e doença, bem e mal, belo e feio… Tudo vai e tudo retorna.
Porém, esses pólos não se opõem, mas são faces de uma mesma realidade, isto é, um complementa o outro, são continuidades de um jogo só. Alegria e tristeza são faces de uma única coisa experienciada com graus diferentes.
Por isso se você fica angustiado com as coisas que aconteceram e voltam a acontecer, saiba que segundo Nietzsche isto é natural, e faz parte da existência humana. O homem tende sempre a viver por repetições e seqüências. Talvez seja por isso que gostamos tanto de assistir a filmes.

Questão sempre atual da morte


                   A questão da morte pode ser discutida hoje no sentido, também, da morte de si. A morte de si no sentido da finitude do Seu Ser, do Seu Existir. Coloco em maiúsculas para ressaltar a individualidade, do SEU, do MEU, porque é assim que nos entendemos e nos vemos desde o fim da Revolução Francesa, como indivíduos. Somos guiados pela Razão, e essa Razão é individual e própria da autonomia de cada um.
                 O mistério da finitude, sempre foi objeto de reflexões filosóficas. Vida e morte são dualidades que aparecem como figuras primordiais da constituição de um sujeito histórico cindido. E é justamente através dessa percepção da finitude que o ser humano é levado a procurar compreender, com todos os meios possíveis, o sentido de sua existência. Como afirmou o filósofo pré-socrático Heráclito, só sabemos o que é vida, porque há a morte, os pares de opostos se completam para completarem a nossa essência, portanto, a morte deve ser encarada com naturalidade, mas não o fazemos.
            Outro ponto de vista sobre a questão da morte pode ser ilustrado a partir do filme “Bravura Indômita” (True Grit, EUA, 2010), que narra a história de uma adolescente que procura vingar o assassinato de seu pai, indo atrás do bandido, contratando um justiceiro. A adolescente é a própria encarnação da bravura, da coragem destemida, da determinação.
Mas o ponto que eu achei muito interessante foi a relação com a morte. O filme mostra como no velho oeste norte-americano a morte era encarada com naturalidade. Era como um rito natural, coisa que hoje em dia não encaramos mais com tanta naturalidade, apesar de sabermos que é uma certeza inevitável.
            A naturalidade da morte no filme pode ser evidenciada na passagem em que a garota assiste a uma execução por enforcamento, na qual muitas pessoas vinham de cidades vizinhas para assistir, como se fosse uma ida ao cinema, por exemplo. Não havia julgamento moral acerca da condenação era mais como espetáculo culturalmente aceito.
            No livro, “Mortes Vitorianas” de Juliana Schmitt, no capítulo 3, há relatos e fotos do mesmo período do filme, em que a morte do outro chegou a ser até cultuada em fotos. Como? Crianças, jovens e adultos foram fotografadas “post mortem”, isso era uma prática muito comum, alimentada pelo apego ao morto e o desejo de registrar seu último momento de convívio. De alguma maneira, a foto assegurava que o cadáver está vivo enquanto cadáver; é a imagem viva da coisa morta. O corpo é eternizado e tornado imortal. Eis o grande sonho do homem, ser imortal. Ter a ilusão de que este mundo é passagem para um outro mundo, da eternidade, porque somos arrogantes e não queremos acreditar que a vida se encerra nesta vida. É mais fácil e consolador acreditar nisto.

Quando há amor?


Quando relacionamos amor e sexualidade, articulamos a dualidade Eros e Thanatos (pulsão de morte), ou seja, o amor sexual também pode ser, muitas vezes, destrutivo.
A força do mito do amor, Eros, está sustentada pela promessa de felicidade plena nas chamadas "histórias de amor". A estratégia desse mito é manter essa promessa de felicidade, ou transformando-o em proibido.
Freud já observara que o amor tende a funcionar como modelo de busca da felicidade e reconhecera sua natureza ilusória no sentido de consolar e tornar tolerável o mal-estar próprio do desejo humano.
A relação entre amor e castração, tem como fundamento uma perda original, colocada por Freud em termos de objeto perdido de uma satisfação primeira e origem de um profundo e permanente anseio por seu retorno, o qual recebe o nome de “desejo”.
O amor seria, então, uma tentativa de fazer desaparecer a falta original do desejo. Se o encontro amoroso proporciona, por um lado, um certo apaziguamento ao alimentar a ilusão da completude perdida, por outro lado, basta amar para que o sujeito se reencontre.
Lacan dirá que, quando se trata do amor, o que está em jogo é a suposição de um ser no outro. Iludido pelo significante (que sugere que haja ser), o sujeito busca, com o amor, fazer signo, suspendendo, ainda que provisoriamente, o deslizamento infinito do desejo.
Já a relação entre amor e gozo, aponta para o excesso, para além do prazer. O sofrimento revela uma possibilidade de enlace com o gozo e, portanto, de manifestar sua face mortífera, porque o prazer não mais o limita.
Para Freud, o amor está ligado mais à idealização, enquanto para Lacan, à sublimação. Na obra freudiana, o amor é, a princípio, situado do lado da pulsão sexual, enraizando-se no narcisismo primário. Ou seja, amor e sexo compartilham, em sua constituição, o prazer parcial ligado, de início, à boca.
Amar como sinônimo de devorar seria, então, a primeira configuração do amor. Além disso, o amor seria independente do ódio (forma mais primitiva de relação com o objeto), opondo-se a este apenas sob a regência do princípio de prazer.
Com a introdução do conceito de narcisismo, implicando em que o eu é também objeto da pulsão sexual, Freud distingue duas formas de amar, mas não se descuida de discutir os destinos pulsionais. A escolha amorosa seria marcada, então, pela divisão da libido entre o eu e o objeto, implicando uma supervalorização do eu (narcisista) ou do objeto.
Assim, o sujeito ama para ser amado. A paixão (além do amor, o ódio e a ignorância) é, justamente, a alienação do desejo no objeto. Em sua face simbólica, diferentemente, o eixo do amor é situado, não no objeto, mas naquilo que o objeto não tem. Como dom ativo, o amor visa o ser, para além da captura imaginária, sustentando-se e equivocando-se na trama significante. O amor revela um esforço, sempre precário, de fazer frente ao real da falta. Eis o nosso legado amoroso, projetar no outro o nosso eu, para nos reconhecermos.