Comecei a ler e notei algo estranho, na verdade, bem estranho. Havia um tópico que dizia: “não ter hábitos homossexuais e bissexuais”. Grifei. E esperei. Fui para casa e, inconformada, fui pesquisar no “grande oráculo” moderno, o Google. Descobri que essa mesma frase maldosa, criminosa e preconceituosa está em vários sites, matérias de jornais e informativos de todo o país. Do Acre ao Rio Grande do Sul.
Me pergunto: quando este informativo foi escrito? Quem o fez? Será que ninguém se atentou para o fato de que esta frase enraíza o preconceito? Em vez de esclarecer, esse tipo de material – que segue a linha: “O que você deve saber antes de doar sangue” – serve para mitificar ainda mais a sociedade. Simplesmente porque essa informação não expressa a verdade. Ela é falsa.
Analisando. Como um governo democrático não tomou conhecimento da circulação desta informação? Acho que por falta de atenção. Não há diferença biológica entre gays, lésbicas ou simpatizantes. Heterossexuais não têm sangue “melhor”. Sangue é sangue. Na hora que você está em um leito de hospital, precisando receber sangue, certamente não perguntará se aquele sangue é de algum gay.
Só para constar, não existem mais os “grupos de risco”. Hoje em dia, todos nós estamos em risco. Na porcentagem, mulheres casadas com mais de cinqüenta anos estão entre os novos portadores do vírus do HIV.
Ainda analisando. Como assim ter “hábitos” homossexuais e bissexuais? Então podemos concluir que ser gay é um hábito? Nós temos o hábito de dormir tarde, temos o hábito de usar jeans, o hábito de não comer nada pela manhã. Agora, a orientação sexual não pode ser um hábito, tem que ser, no mínimo, uma escolha.
Concluindo. Frases como essas só servem para emburrecer o povo, isso é mitificar. É pegar um conceito já desmistificado e inserir um novo mito. Uma informação falsa como essa faz o mito do preconceito ganhar forças, e se instaura para sempre em nossa sociedade. Ele apenas se mutaciona. O preconceito pode vir, historicamente, de forma escancarada, como aconteceu na Alemanha nazista. A higienização de raças inferiores pelas superiores. Reflito sobre a Alemanha para ressaltar que não só judeus foram para os campos de concentração, mas também, ciganos e homossexuais (entre outros).
Essa foi a pior parte do informativo, a mais repulsiva e mentirosa. Mas não parava por ai. Nos tópicos seguiam: “Não ter hábitos promíscuos” e “não ser usuário de drogas”. Moralmente e legalmente condenáveis. Contudo, hábitos promíscuos remetem a “mocinha (o) que sai com todo mundo”. Ok. O que deveria ser explícito, no entanto, era a importância do uso de preservativo em TODAS as relações sexuais. Não importa se você transa com um homem e você é um homem. Não importa se é uma garota que gosta de transar com um monte de homens. O que importa é se nessas transas você está usando preservativo.
O mesmo com acontece com o tópico “não ser usuário de drogas”. É obvio que o uso de drogas não é algo bom, e nem legalmente permitido. Mas seguindo a linha de desmistificação, seria importante ressaltar neste tópico: “não compartilhar seringas”. Porque o objetivo do informativo é pré-selecionar o sangue coletado. Pensando assim, não só usuários de drogas que compartilham seringas terão o sangue descartado, mas também, aqueles pit-boys que compartilham seringas ao auto-injetar substâncias anabolizantes. O esclarecimento tem que prevalecer em uma sociedade democrática. Toda a forma de preconceito é repulsiva, não podemos permitir a propagação deste material impunemente, pois no governo do povo, o povo deve agir.
Escrito em 10/05/2009.
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