domingo, 13 de novembro de 2011

Ida ao teatro: Obscena Senhora D.

Impresso sobre a peça impecável. Boa fotografia, bom resumo. Boas expectativas sobre a peça. Há alguns anos sou fã, se assim pode se dizer, de Hilda Hilst (escritora de Jaú, conhecida mais no mundo do que no Brasil). Seria uma honra ver uma encenação de “Obscena Senhora D”.
Munida do meu ingresso de estudante – sim, ainda sou estudante – fui ao SESC na última quinta-feira. Gosto do SESC acho que lá as coisas funcionam, uma amiga me transportou (lembrem-se ainda estou me reabilitando), parou na vaga de deficientes para eu não ter que andar tanto. E não é que as coisas lá funcionam mesmo!
Chegamos quinze minutos antes do horário. Como não haviam lugares marcados entrei na fila. Entramos no teatro, aconchegante, com o problema de não ser inclinado, ou seja, quem estava na quarta fileira – meu caso – já não enxergava muita coisa. A Obsecena Senhora D. já estava no palco, mas as luzes ainda estavam acesas. Nisso uma senhora, quase obscena, levanta e faz o seu ato. Dizendo que estava incomodada com o barulho, e que a peça já havia começado (para ela poderia ser). No entanto, a peça não havia começado de fato. Mas a Obscena Senhora D. já provocava o público presente. Isto que é o mais legal e interessante do teatro, ele incomoda, provoca, instiga, e o público participa. O ator encena diante do público mesmo, e não diante de um aparato tecnológico, como os atores de cinema e tv.
Apagaram-se as luzes e a peça começou. Todo um frisson tomou conta daquela sala, as pessoas estavam inquietas e não sabiam qual reação ter diante da atriz que encenava Hillé ou Senhora D. Alguns riam, outros ficavam parados. A minha dúvida é se riam porque achavam engraçado ou por achar que deveriam rir. Logo as indagações metafísicas surreais tomaram o tom: "E o que foi a vida? Uma aventura obscena, de tão lúcida". As pessoas presentes se inquietavam nas poltronas, tentavam entender o monólogo que estava diante dos seus olhos. A atriz provocava, estava impecável como a obscena. No vão da escada de sua casa escura, essa obscena Senhora D. nos contempla através dos buracos dos olhos das máscaras. Para falar "dessa coisa que não existe mas é crua e viva, o Tempo", para cuspir em nosso rosto a pequenez, a perdição humana, para dizer que "ninguém está bem, estamos todos morrendo". Enquanto se dissolvem no aquário peixes pardos recortados em papel. O monólogo aguça ainda mais a imaginação do público, temos que montar mentalmente a narrativa e as cenas. Contudo a peça não fica cansativa e nem vulgar, apesar de obscena. Sons, gritos, urros, rouquidões. Impossível aventurar-se no texto de Hilst sem entrega. Inútil munir-se apenas das armas da razão. Hipnótico, o discurso envolve como águas – às vezes lodosas, às vezes claras – e numa vertigem nos arrasta, de susto em susto, cada vez mais para perto daquilo onde tudo pode acontecer. Traiçoeiras e sensuais, as palavras ofegam e palpitam, como se tivessem carne, sangue, músculos, nervos, ossos. Sempre se pode gostar de porcos. Gostar de gente, também. Espero que depois de terem assistido a essa peça ninguém tenha saído ileso. Como não se sai, afinal, da própria vida.


Escrito em 31/07/2009.

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